Educação em Portugal pode passar a "patamar ainda melhor"
26 de jan. de 2023, 08:24
— Mariana Caeiro/Lusa/AO Online
O CNE divulgou o
relatório “Estado da Educação 2021”, onde traça o retrato do sistema de
ensino português com base num conjunto alargado de indicadores,
relacionados com os professores, alunos e até o investimento feito no
setor.Numa entrevista à agência Lusa a
propósito da divulgação do relatório, o presidente do órgão consultivo
do Governo sublinhou que o cenário era, em 2021, muito diferente face à
década anterior e, se por um lado, subsistem problemas por resolver, há
indicadores em que “o país está claramente a melhorar há 10 anos”.Desde
logo, Domingos Fernandes sublinhou a evolução das taxas de abandono
escolar e de conclusão, recordando que, na década de 1990, mais de
metade dos alunos não chegavam a terminar o secundário e, atualmente,
cerca de 87% concluem esse ciclo de ensino.“O
país não tem nada a ver com o que era há uns anos atrás. Tem havido uma
evolução fruto das políticas públicas, fruto do próprio desenvolvimento
da sociedade, e fruto também do trabalho dos professores”, sublinhou.No
entanto, o presidente do CNE ressalva que essa evolução positiva não
está concluída, havendo ainda um caminho a percorrer para melhorar,
apesar de considerar que as condições para isso já existem.“Acredito
que temos condições para passar para um patamar ainda melhor. Temos
condições objetivas, professores muito qualificados”, começou por dizer,
referindo, a título de exemplo, que, do ponto de vista legislativo, as
escolas têm, desde 2017, espaço para fazer melhor no âmbito da autonomia
e flexibilidade curricular.Um dos aspetos em que Domingos Fernandes vê espaço para melhorar é, precisamente, na forma de ensinar.“A
nossa tradição pedagógica não nos ajuda muito a lidar com a diferença,
temos de ser mais flexíveis”, disse, insistindo que isso já é possível.Por
outro lado, o presidente do CNE argumentou também que a prioridade dos
professores tem de ser a aprendizagem e não o ensino, e que o trabalho
com os alunos tem de ser mais próximo, o que implica abandonar a ideia
de que o professor fala e o aluno escuta.“Estas
coisas, naturalmente, demoram algum tempo, mas eu acho que o país tem,
neste momento, condições objetivas”, reafirmou, apontando a necessidade
de outras medidas concretas, como a aposta na formação contínua dos
professores.“Também é preciso que se
conheça melhor as escolas e que as escolas colaborem umas com as
outras”, defendeu, acrescentando o reforço da relação com as
instituições de ensino superior.Domingos
Fernandes reconheceu, no entanto, que professores muito qualificados,
bem como as restantes “condições objetivas” não são a chave para
responder a todos os problemas e, naquilo que respeita à carreira
docente, a sua valorização tem de ser uma prioridade do Governo.“A
profissão é bastante exigente e precisamos de uma carreira mais
tranquila. É por isso que eu aposto num compromisso histórico, é muito
importante para que alcancemos outra qualidade”, sublinhou.Esse
compromisso histórico poderá resultar das negociações em curso entre o
Ministério da Educação e os sindicatos do setor, espera o representante
do CNE, que admitiu estar solidário com muitas das reivindicações dos
docentes.Por esse motivo, Domingos
Fernandes apelou a “um grande esforço” das duas partes. Do lado do
Governo, uma aproximação às reivindicações dos professores, “porque são
justas”, enquanto da parte dos sindicatos tem de haver cedências “até um
certo ponto”.