Partindo do tema “Gestos de Abundância”, o Walk&Talk estreia-se
hoje como bienal, naquele que é o primeiro momento do evento. Organizada
pela associação cultural Anda&Fala, a Bienal Walk&Talk tem a
curadoria de Jesse James, Claire Shea, Fatima Bintou Rassoul Sy e
Liliana Coutinho, conta com três momentos, nomeadamente a “Abertura” (de
hoje e até domingo), o “Simpósio” (7 a 9 de novembro) e o
“Encerramento” (28 a 30 de novembro).Desta forma, a Bienal inicia
hoje, por volta das 17h30, com a inauguração da Casa da Bienal, em Ponta
Delgada e com um jantar, “como forma de juntar todas as pessoas que
fizeram parte deste caminho para a Bienal”, afirmou Jesse James, em
declarações ao jornal Açoriano Oriental, recordando que a Bienal
Walk&Talk “não surge do nada”, houve uma série de “ações,
assembleias e projetos que foram acontecendo ao longo do último ano e
que culminam nesta semana de abertura” com apresentações ao longo de
todo o fim de semana.O diretor artístico da Anda&Fala destaca
ainda a exposição ‘Gestos de Abundância’, que se expande pela ilha de
São Miguel, apresentando-se em vários espaços, “um deles é a Casa da
Bienal, mas também no Centro Municipal de Cultura, no Arquipélago -
Centro de Artes Contemporâneas, no Caloura, no Convento dos
Franciscanos, na Galeria Fonseca Macedo”. A Bienal contará ainda com
várias performances, “muitas delas associadas ou que acompanham os
momentos de inauguração das exposições, haverá concertos, exibições,
momentos mais de reflexão e, obviamente, também de festa, de convívio,
porque a Bienal também é sobre celebrarmos e estarmos em conjunto”. Recorde-se
que o festival Walk&Talk surgiu em 2011, foi crescendo aos longo
dos anos, unindo pontes, ideias e experiências, entre artistas e
comunidade local, tornando-se num evento de referência para os Açores.
Este ano surge como bienal, que acaba por ser “uma evolução natural do
projeto e na forma como se foi transformando de edição para edição”,
disse Jesse James. Esta transição para um formato Bienal, “é mais um
salto de fé e mais um passo naquilo que é a ambição que temos para o
projeto, na forma como se posiciona, na forma como se relaciona com
outras geografias, mas também com instituições e com parceiros. Ou seja,
vai na sequência daquilo que tem sido o caminho do Wall&Talk ”,
sublinhou, para afirmar que “queremos pensar que o espaço da Bienal pode
ser um lugar para pensarmos o que é esta região, o que é o Atlântico e
como é que se relaciona com outros lugares".O Açoriano Oriental
também esteve à conversa com as curadoras, Claire Shea (Toronto,
Canadá), Fatima Bintou Rassoul Sy (Dakar, Senegal) e Liliana Coutinho
(Lisboa).Questionada sobre o caminho que levou à Bienal, Claire Shea
afirma ter sido um trabalho “muito colaborativo desde o começo e ao
longo de todo o processo”, explicando que “não nos conhecíamos muito
bem” e que as “residências foram muito importantes para conhecer a ilha e
a equipa. Tivemos também as assembleias onde falamos de temas que
poderiam conduzir à Bienal e, então, desenvolvemos o conceito,
elaborando-o com mais residências”. Claire Shea, referiu ainda que,
em paralelo, “começamos a convidar artistas que sentíamos que tinham um
trabalho que se assemelhava com as ideias que estávamos pensando
coletivamente”.É sobre os artistas que Fatima Bintou Rassoul Sy nos
fala, quando questionada se foi difícil convidar artistas para fazerem
parte da Bienal. A curadora diz que “os artistas estavam muito animados
de poderem vir aos Açores e entender o que estava acontecendo nesse
contexto de bienal”, acrescentando que muitos deles “disseram sim,
porque já tinham ouvido falar do festival Walk&Talk há muito tempo”,
enquanto que para outros artistas “foi um pouco difícil mapear a
geografia dos Açores com a sua própria geografia e contexto. Os Açores
têm uma posição de estratégia muito geográfica, está no meio do Oceano
Atlântico, então, se funde e traz uma narrativa diferente, se funde e
traz histórias diferentes e pessoas diferentes”. Por isso, afirma que
“acabou por ser muito interessante para eles explorarem, através das
residências e também sentir a relação que os membros do Walk&Talk
têm com as pessoas da comunidade”. Isto porque “um elemento que foi
fundamental foi fazer crescer a Bienal e fazer com que a missão não
divergisse quando se trata da comunidade e da população de São Miguel”,
disse. A curadora, Liliana Coutinho, salientou que “alguns artistas,
não todos, estão colaborando pela primeira vez connosco”. Esclareceu
ainda que “fizemos os convites pensando na pesquisa que os artistas
estavam fazendo. São artistas que vieram de contextos muito diferentes,
temos europeus, africanos, etc. Mas todos eles adaptaram-se muito bem
aos Açores. Por causa disso é que foi importante a realização das
residências, para que os artistas pudessem ficar aqui, passar tempo
aqui, para voltar e trabalhar sobre a experiência e as conversas que
tivemos”.Assim, o trabalho foi construído, “não apenas trazendo
artistas do exterior, mas trabalhando com e dentro desse território e
com as histórias que estão aqui”.Liliana Coutinho, abordou também o
facto da Bienal trabalhar com jovens artistas dos Açores, “é algo que a
Vaga e o festival estão fazendo há muito tempo. Dar esse espaço aos
artistas dos Açores. Pensamos que seria importante manter isso”. Por
outro lado, temos “artistas de outras gerações, como por exemplo, o
Carlos Carreiro, a Ana Vieira, a Catarina Branco”, disse Liliana
Coutinho, com Jesse James a reforçar que “também foi uma forma de
reconhecer essas diferentes gerações de artistas dos Açores e
inclui-los na Bienal através de uma conversa ou de um diálogo com outros
trabalhos”.Sobre o que esperam os curadores destes quatro dias de
evento, Liliana Coutinho começa por dizer que “muitos encontros”,
frisando que “pessoalmente é muito interessante chegar a este momento. É
um projeto que foi pensado nos últimos dois anos e agora estamos vendo a
concretização. É muito interessante termos essa experiência, mas também
poder oferecer essa experiência ao público de São Miguel e também ao
público que está vindo para cá propositadamente para a Bienal”.
Portanto, “irá ser curioso ver como será recebido, que tipo de conversas
irão acontecer”. Claire Shea faz referência às pessoas na
“comunidade que têm ajudado os artistas na construção da sua pesquisa,
foi uma ajuda muito importante, como por exemplo a Universidade dos
Açores, outras entidades da região que se envolveram no projeto”,
esperando que “estejam presentes neste momento de abertura”.Também
Fatima Bintou Rassoul Sy deixou “um grande obrigado às pessoas que nos
acompanham desde 2023. A Vaga tem sido fundamental no nosso acolhimento e
tem nos feito sentir em casa, e ainda às pessoas da comunidade porque
são elas que dão abertura para entrarmos e investigarmos diferentes
tópicos e principalmente para que essa Bienal aconteça”.Para colocar
em prática projetos desta envergadura, é necessário apoios financeiros,
mas para que isso aconteça é preciso também apresentar um projeto
credível.Ora nesse capítulo, Jesse James explica que a estrutura
que organiza a Bienal, Anda&Fala, teve o financiamento do Ministério
da Cultura, através da Direção-Geral das Artes, “um financiamento que é
quadrianual e é isso que nos permite sustentar e criar a base para a
construção e definição da Bienal”. Há uma série de outros financiamentos
que “angariamos especificamente para este projeto, seja através de
várias direções regionais ou departamentos, temos o apoio da Câmara
Municipal de Ponta Delgada, que é a cidade anfitriã do projeto e depois
juntam-se uma série de outros apoios que nem sempre são financeiros, mas que são extremamente importantes, porque estão a possibilitar que os
projetos dos artistas possam ser desenvolvidos, possam ser aprofundados
e que se possam concretizar ou materializar”, acrescentando que “temos
apoio de fundações como a Fundação ‘La Caixa’, que nos permite fazer um
investimento no Programa Sintonizar, que é o nosso programa de mediação
da Bienal e que vai permitir gerar esses espaços de convite e de
inclusão de pessoas também no programa da Bienal, ao longo dos dois
meses. Tudo isso faz com que o orçamento total da Bienal, ao longo dos
dois anos, seja à volta de 600 mil euros”.