EDA rejeita qualquer “conflito de interesses” em negócio de combustíveis
10 de out. de 2024, 14:47
— Lusa/AO Online
“Por decisão
pessoal e por precaução apenas, os dois administradores do Conselho de
Administração da EDA que foram indicados pela ESA [Energias e Serviços
dos Açores SA], pediram a escusa em todas as decisões ou decidiram não
participar nas reuniões, por isso, eu não posso aceitar que exista
alguma situação de conflito de interesses”, justificou aquele gestor
público numa audição na Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável, reunida em Ponta Delgada.Paulo
Jorge André respondia assim às dúvidas levantadas pelo deputado do
Bloco de Esquerda, António Lima, que considera haver um “gigantesco
conflito de interesses” num negócio de compra de combustíveis, por
ajuste direto, por parte da EDA, à BENCOM, do Grupo Bensaude, um dos
acionistas da empresa (através da ESA), no valor de 162 milhões de
euros.“O contrato existente entre a região
e o grupo Bensaude garantiu lucros astronómicos à Bensaude e taxas de
rendibilidade muito acima da média do setor”, acusou António Lima,
adiantando que um contrato de 162 ME, pelo período de três anos, “é
suficientemente importante” para que o Governo Regional de coligação
(PSD, CDS-PP e PPM) venha a público “explicar os seus contornos”, por
entender que “há uma enorme falta de transparência” neste processo.O
presidente da elétrica açoriana explicou que o ajuste direto entre
ambas as empresas apenas foi assinado porque o concurso público lançado
pela EDA, no valor de 135 milhões de euros, para o fornecimento de
fuelóleo para a produção de energia elétrica, ficou deserto e não se
podia correr o risco de faltar eletricidade em algumas ilhas.Paulo
Jorge André lembrou que a diferença de valores entre o concurso público
e o ajuste direto explica-se pelo aumento do custo do combustível nos
mercados internacionais e pelo facto de nenhuma empresa se ter mostrado
disponível para fornecer o fuelóleo pelo valor inicialmente previsto.“Não
ficou comprovado, por isso, que tenha existido qualquer prejuízo para a
EDA nesse negócio”, insistiu o administrador da empresa, garantindo que
sempre pautou as suas funções como gestor pelo “estrito interesse
público”.O líder do BE/Açores estranha, no
entanto, que o executivo açoriano não tenha tido uma palavra a dizer
sobre “um contrato milionário de 54 ME por ano”, que diz ser “talvez o
maior contrato público atual na região”, por isso, já propôs também a
audição parlamentar da secretária regional do Turismo, Mobilidade e
Infraestruturas, Berta Cabral, para tentar explicar os contornos deste
negócio.“Este é um grande negócio que não
pode servir para garantir milhões em rendas excessivas ao maior grupo
económico da região” e “o Governo Regional, qualquer que seja, tem de
defender o interesse público, garantir o fornecimento do combustível
para produção de eletricidade a um preço justo e promover uma verdadeira
transição energética”, defendeu António Lima.A
Assembleia Legislativa dos Açores já tinha aprovado, em 2023, uma
resolução do Bloco de Esquerda que recomendava ao Governo Regional a
realização de estudos para encontrar “a melhor solução económica e
ambiental” para o modelo de fornecimento de combustível para a produção
de energia a partir de 2025, altura em que termina o atual contrato de
exclusividade, com a empresa BENCOM.De
acordo com os números divulgados pelo BE, entre 2013 e 2021, a BENCOM
faturou à EDA cerca de 375 milhões de euros com o negócio de
fornecimento de combustíveis.