Economistas defendem a diversificação da economia da Região
Hoje 09:45
— Filipe Torres
Os economistas Mário Fortuna, Gualter Furtado e João Teixeira defendem que os Açores precisam de aumentar a riqueza da Região para diminuir a dependência externa.Os especialistas foram oradores no colóquio “A Autonomia Açoriana no Portugal Democrático: Balanço e Perspetivas”, com organização do CHAM - Centro de Humanidades da Universidade dos Açores, no polo de Ponta Delgada da Universidade dos Açores (UAc).Para Mário Fortuna, a produtividade aparente do trabalho nos Açores é relativamente baixa comparada com o resto do país, com um PIB per capita relativamente baixo, mesmo com o rendimento disponível bruto das famílias próximo da média nacional.O professor jubilado da UAc refere que a economia continua a depender significativamente de transferências provenientes do exterior, sendo que isso constitui uma fragilidade estrutural e limita a sustentabilidade económica a longo prazo.Critica a “sucessão de fracassos” empresariais públicos, nomeadamente a SAUDAÇOR, a Sociedade de Promoção e Reabilitação de Habitação e Infraestruturas (SPRHI) e a SATA, e institucionais, como promoção de investimento, promoção do turismo e da marca Açores. Recomenda que se deve institucionalizar modelos de projeção, avaliar o impacto e ter estruturas executivas protegidas de ingerência política de curto prazo.Alerta para o risco de a economia ficar muito concentrada no turismo, prejudicando outros setores produtivos. Fortuna defende uma maior aposta na diversificação económica. E sustenta que, para a autonomia ser sustentável, são necessárias instituições competentes, disciplina financeira e capacidade de investimento para políticas eficazes.Autonomia “muito positiva”Gualter Furtado considera que os primeiros 50 anos da autonomia foram “muito positivos”, nomeadamente pela diminuição da taxa de mortalidade infantil e da taxa de analfabetismo; e por causa do PIB per capita.Para o economista, é necessário voltar a discutir o papel do Representante da República, criticando a manutenção de procedimentos financeiros que continuam a passar, em primeiro lugar, pelo gabinete da Representante do que pela secretaria regional das Finanças. Considera que as competências devem ser assumidas pelo Presidente da República, e não pelo presidente da Assembleia da Região.Pede, ainda, que até ao final do presente ano seja retomado o trabalho do Estatuto-Político da Região Autónoma dos Açores, afirmando que há questões relacionadas com a organização interna.Gualter Furtado comparou ainda os valores das receitas próprias sob a despesa pública: de 54%, em 1980, para 46,8% na proposta de 2027. Quer que a Região esteja mais ao serviço das pessoas. Criticou a economia regional “pouco sofisticada, pouco diversificada e pouco elaborada”, apontando a importação de cerca de 25 mil viaturas ligeiras nos últimos seis anos. Relativamente ao Centro Académico Clínico, Gualter Furtado realçou que pode funcionar em diversos locais e ilhas, afirmando que não é necessário colocar São Miguel e Terceira à disputa.Aposta “muito maior”O presidente da Faculdade de Economia da UAc, João Teixeira, entende que, mesmo com a recuperação económica dos últimos anos, o crescimento da Região continua a ser reduzido e será necessário um esforço prolongado para recuperar o atraso em relação à média europeia.João Teixeira refere que os Açores precisam de um plano de desenvolvimento regional que estabeleça objetivos concretos para o futuro, envolvendo o Governo, as universidades e outras instituições.O economista entende que é necessário garantir um equilíbrio orçamental, considerando que a Região está a perder autonomia financeira por estar mais dependente do Governo da República, acrescentando que o crescimento previsto para IRS e IRC em 2027 é inferior ao crescimento nominal do PIB.João Teixeira afirma que é preciso uma aposta “muito maior” na ciência, ensino superior, investigação e desenvolvimento (I&D), menos jovens NEET, maior digitalização, adaptação à inteligência artificial e maior diversidade da base económica em setores de maior de valor acrescentado.