Ecomuseu do Corvo ajuda a recuperar tradição da tecelagem na mais pequena ilha açoriana
19 de out. de 2024, 10:25
— Lusa
"Iniciámos, desde
2022, um trabalho de recuperação tanto das memórias, como das vivências
e tradições. Mas, gostaríamos muito que este ofício, que estava
extinto, deixasse de ser memória para ser também património imaterial",
disse à agência Lusa a diretora do Ecomuseu do Corvo, Deolinda Estêvão.O ofício da tecelagem perdurou no Corvo durante séculos e foi essencial à sobrevivência da comunidade corvina.Na
ilha eram produzidas roupas e agasalhos e foi-se aperfeiçoando o
ofício, que perdurou até à segunda metade do século XX, mais
precisamente até 1969, ano em que se realizou o último “Dia da lã” e,
como consequência, o fim da tecelagem. "No
passado, eram produzidas peças utilitárias de vestuário e
inclusivamente o foro, o imposto, era pago à coroa em pano de tecido.
Tinham que ser pagos cerca de 880 metros de lã anualmente à coroa",
explicou a diretora do Ecomuseu.No
entanto, "pouco restou" daquele património imaterial, para além dos
lugares e objetos de memória, e dos testemunhos orais, agora
recuperados.O EcoMuseu do Corvo lidera o
projeto para reavivar o ofício e manter viva a tecelagem, tendo
adquirido um tear para desenvolver os processos formativos.Integrado
no plano de atividades, o espaço museológico desenvolve, desde 2022,
ações de recolha e capacitação da comunidade, que vão desde a
identificação e mapeamento de locais onde se tosquiava, cardava, tingia
ou tecia, inventário dos utensílios que ainda existem na ilha associados
à tecelagem, a par da recriação do “Dia da lã” e ações de formação, com
Fernando Pereira, que se desloca à ilha do Corvo."Com
a colaboração de diversos agentes, onde a comunidade assume um papel
muito importante, e com esses processos de capacitação, conseguimos
formar um grupo de oito senhoras e conseguimos que uma jovem se
motivasse e abraçasse novamente este ofício. Por isso, podemos dizer
hoje que a tecelagem na ilha do Corvo deixou de ser memória e passa a
ser novamente património imaterial", sublinhou a responsável.Segundo
Deolinda Estevão, há agora uma tecelã certificada e registada desde 09
de junho no CADA (Centro de Artesanato e Design dos Açores) como artesã
da ilha do Corvo dedicada à tecelagem. "Isto
é um marco histórico, porque desde 1969 a tecelagem extinguiu-se na
ilha. Passados estes 55 anos temos novamente a tecelagem viva e podemos
dizer que faz parte novamente do património imaterial do Corvo",
assinalou Deolinda Estêvão.Além de Zita
Mendes, que ficará "para a história do Corvo como a primeira de muitas
que a seguir virão", como tecelã credenciada, também a mãe abraça a
arte, segundo a diretora do Ecomuseu."Não
temos dúvidas, que revitalizaram um saber extinto, que pertencia à
memória coletiva da comunidade, para o transformar em património
imaterial. Temos agora duas tecelãs no ativo que estão a produzir
pequenas peças de artesanato", reforçou.Para
já, a produção passa por pequenas peças que são comercializadas
localmente, até porque a lã usada na confeção não é originária da ilha,
mas adquirida na zona da Serra da Estrela.A
ilha só tem atualmente um criador de ovelhas, mas a diretora do
Ecomuseu adiantou que o espaço museológico está também a investir em
processos de capacitação para retomar a produção local de lã e formação
na área da fiação, lavagem da lã e tinturaria. Como
outro projeto "mais ambicioso", a responsável revelou a intenção de ser
criada uma Casa dos Teares, com um percurso museográfico e a laboração
de teares ao vivo."O Ecomuseu é o
catalisador para que a comunidade se aproprie novamente desses
processos", disse a responsável, sublinhando que esta é também uma forma
de revitalizar a economia local da ilha com cerca de 400 habitantes.