É uma bênção que o meu disco continue a ter relevância
Hoje 10:30
— Ana Carvalho Melo
Qual é o significado desta digressão em que celebra 30 anos do seu primeiro trabalho discográfico “Aos Vivos”?Para
mim é uma alegria muito grande voltar a Portugal, porque Portugal foi
um dos primeiros países da Europa onde estive com o projeto “Aos Vivos”,
em formato de voz e violão. Tive a oportunidade de abrir um concerto da
Daniela Mercury num dos Coliseus. Desde que fui a Portugal pela
primeira vez, fui conhecendo artistas com os quais me identifiquei
bastante, como a Né Ladeiras e o Fausto, com quem tive a oportunidade de
almoçar e conversar.Reencontrar o público português é um prazer. E
quando falamos de público português, referimo-nos às pessoas que estão
em Portugal, que não são apenas os portugueses: há os africanos
lusófonos e há os brasileiros, uma comunidade cada vez mais vasta,
presente e variada. No início, este projeto dos 30 anos tinha sido
pensado apenas para o Brasil. Mas agora que já caminhamos para os 31, é
uma alegria levar este projeto para Portugal.Como é que tem sido a reação do público a este concerto em que revisita os seus 30 anos de carreira?É
uma celebração. É incrível como as pessoas cantam e vivem praticamente
todas as músicas deste disco. Quando o lancei, o primeiro público no
Brasil eram estudantes do secundário, com 15 ou 16 anos. Eu tinha 31
anos na altura, por isso eles eram muito mais jovens. Hoje, essas
pessoas têm 45 ou 46 anos. As pessoas da minha geração têm agora cerca
de 60 ou 62 anos - eu próprio tenho 62.Percebo também uma renovação
do público. Aparecem pessoas muito jovens nos concertos, talvez por
serem irmãos daqueles primeiros fãs ou por serem seus filhos. Vem gente
com 16 ou 14 anos, e até crianças de 4 anos que amam várias músicas
deste trabalho. Este disco continua a ser uma porta de entrada na vida
das pessoas.E como é que se sente ao ver que consegue tocar gerações tão distintas? Deve ser um privilégio?Sinto-me
realmente abençoado, mais do que privilegiado. É como uma bênção sentir
que o que eu tinha para dizer no meu disco de estreia deve ser dito
para sempre e que terá sempre relevância para pessoas das classes
sociais mais distintas e das gerações mais diversas.Acho incrível
porque, no início, quando gravei o disco, pensava de um modo talvez
vaidoso ou arrogante: “A letra da minha música é muito importante”. Via
no meu trabalho uma importância cerebral e intelectual. Hoje em dia,
percebo que essa parte intelectual é apenas uma parte; há uma vertente
sensível e sensorial que cativa pessoas com menos escolaridade e
crianças. As crianças identificam-se com aspetos genuínos do disco, como
línguas inventadas - o “dzaia soiê, dzaia, dzaia” que ninguém sabe o
que quer dizer, mas que acaba por ser para todos. Cada pessoa atribui o
seu próprio significado. Há sons e gritinhos que as crianças amam, e
isso criou um vínculo com as novas gerações. Há mães que me contam que
os filhos de 2 anos só adormecem a ouvir a música “Beradêro”. Acho isso
incrível.A digressão para apresentar em Portugal é diferente daquela que preparou para o Brasil? É
diferente, pois trata-se de outro país. É um país onde a nossa cultura
bebe muito e vice-versa; há uma troca constante através das telenovelas,
da música, da moda, da culinária e até de influências dialetais no modo
de falar que já influencia os jovens portugueses. Mas sabemos que é
outro país.Quando vamos a Portugal, não tocamos apenas para os
portugueses, mas também para a diáspora africana lusófona - de Angola,
Moçambique, Cabo Verde, Guiné, etc. - e para os muitos brasileiros que
vivem aí. Tive uma experiência recente que gostaria de contar: fui fazer
um espetáculo com o Mário Lúcio num teatro do centro e, enquanto ia
para o ensaio de som, ouvi uma música minha a tocar numa casa de vinhos e
petiscos. Era a canção “Pedra de Responsa”. Entrámos devagarinho e vi
um senhor de costas a dançar ao som da música. A minha namorada
perguntou-lhe o que estava a ouvir e ele, sem me reconhecer de imediato,
respondeu: “É uma música muito boa de um artista incrível do Brasil, o
Chico César, que vai tocar hoje no teatro. Estou aqui a fazer um
aquecimento para o concerto dele”. Ele acrescentou que, num tempo de
tantos conflitos e xenofobia, punha aquela música para as pessoas
perguntarem de onde era, e ele dizia com orgulho que era do Brasil.Apresentei-me:
“Senhor Luís, que emoção, sou eu, o Chico”. Ele ficou muito feliz. Era
um português mais velho e aquele encontro fez-me sentir que o outro nos
complementa e nos amplia. Ver um português que ama a minha música e a
partilha para tornar as pessoas mais amorosas é, para mim, a verdadeira
mensagem.No dia 14 vai atuar no Teatro Micaelense em Ponta Delgada. É a primeira vez nos Açores?Sim, é a primeira vez. Aqui temos uma comunidade açoriana em Florianópolis, Santa Catarina. Por
isso, para mim é um prazer e uma alegria. Sinto que são pessoas que vêm
de uma vida que talvez tenha a ver com a origem destas músicas, uma
origem mais rural. Eu próprio venho do interior do Nordeste. E penso que
isso cria identificações próprias, diferentes de quando se toca num
centro urbano como Londres ou Paris. Adoro tocar nestes lugares onde
posso perceber essas novas identificações.Não sei se há mais alguma coisa que gostasse de acrescentar...Quero
dizer que vou realizar esta digressão com o coração e os braços
abertos. É uma alegria imensa podermos celebrar o facto de estarmos
vivos, com uma vida profunda e rica de significado, para ser valorizada
minuto a minuto.