“É necessário mais e melhor formação para os nossos treinadores poderem almejar desafios mais ambiciosos”
Hoje 16:32
— Arthur Melo
O que o levou a candidatar-se à presidência do Núcleo dos Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol?Compromisso
é a melhor palavra para definir a motivação que tive. Desde logo, um
compromisso comigo próprio enquanto treinador e igualmente para com as
pessoas que me acompanham neste desafio. Foi também um compromisso que
havia assumido com o professor Henrique Calisto, pois desde a primeira
hora que assumiu a sua candidatura à Associação Nacional de Treinadores
de Futebol teve a frontalidade e a honestidade de me explicar que os
Açores e a Madeira eram uma prioridade sua, para conseguir unir
totalmente os treinadores do país em torno da nossa causa e logo após
ter tomado posse, deu um enorme impulso para darmos o passo que demos. Posso
garantir publicamente que esta vontade já existia há alguns anos por
parte de alguns elementos que agora tomam parte dos órgãos sociais,
tendo eu conquistado maior determinação para assumir a candidatura à
presidência por ter tido um apoio claro e inequívoco dos meus
vice-presidentes, Emanuel Ferreira (da Associação de Futebol de Ponta
Delgada), António Viveiros e Roberto Rosa (da Associação de Futebol de
Angra do Heroísmo), pois foram determinantes para termos avançado com
uma equipa que conseguiu reunir elementos oriundos das três associações e
todos com reconhecido trajeto.Os órgãos sociais do Núcleo dos
Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol integram
elementos oriundos das três associações de futebol da Região. Foi fácil
conseguir reunir um grupo representativo do todo regional em torno de um
objetivo comum?Anteriormente já tinha havido umas tentativas de
se formar um núcleo ou, até mesmo, a ideia de serem criados três
núcleos, mas nunca avançaram. O objetivo comum deste grupo que avançou
foi sempre o de termos um núcleo dos Açores na sua globalidade e, tal
como disse atrás, o apoio e o encorajamento que senti das pessoas que
mencionei foram determinantes, pois cada um naquilo que tem sido o seu
percurso de Treinador indicou pessoas que consideraram importantes para
avançarmos com uma equipa coesa e focada em melhorar as questões que
envolvem a nossa classe. É importante referir que nos órgãos sociais
apenas não temos elementos de Santa Maria, São Jorge e Flores, mas com a
adesão de mais sócios contamos, muito em breve, podermos ter um
delegado em cada uma destas ilhas e com isso termos uma expressão global
nos Açores.Quais são os principais desafios que os treinadores açorianos - ou nos Açores - enfrentam nesta altura?Antes
de responder propriamente, é justo dizer que se colocarmos esta mesma
questão em outras partes do território nacional, se calhar vamos ter a
mesma perspetiva de resposta, mas com diferentes graus de prioridade. Direi
que, pelo facto de estarmos mais afastados dos centros de decisão, gera
um desafio logístico ao nível das competições e/ou participações nos
nacionais. Este afastamento cria logo uma barreira a vários níveis, a
começar pelo acesso à formação de treinadores em níveis superiores (Grau
III e IV) ou então simplesmente na partilha ou aquisição de
conhecimento e de experiências competitivas, pois a larga maioria dos
nossos treinadores faz o seu trajeto ao nível de ilha ou, quanto muito,
regional. Um outro desafio com que nos debatemos - e que é pouco
valorizado -, é que os treinadores que desempenham funções na formação
trabalham com indicadores complexos e deficitários, quando comparados
com o território continental. Dou como exemplo o índice de obesidade, o
abandono escolar ou até mesmo o índice de pobreza. Por isso, é
igualmente justo reconhecer que os treinadores nos Açores fazem um
trabalho hercúleo, pois a grande maioria tem a capacidade técnica e
emocional de gerir grupos multidisciplinares com cada vez mais sucesso
em ambas as modalidades e géneros, mas temos de abandonar certos
complexos e teorias para nos aproximarmos dos patamares mais altos. Diria
que temos de incrementar uma filosofia formativa em detrimento da atual
filosofia resultadista em termos dos escalões de formação, sendo este
um enorme desafio que deve envolver não só os treinadores, mas também o
dirigismo e os adeptos de uma forma geral.O que tem faltado aos treinadores açorianos para começarem a singrar e a aparecer em patamares superiores a nível nacional?Melhor
formação! Como em quase tudo no Desporto, o nível de formação dos
treinadores também se mede de forma piramidal e, neste contexto
concreto, posso afirmar - pelo que já analisei - que temos um número
deficitário de treinadores com o nível II (UEFA B) e que, por sua vez,
leva diretamente a que tenhamos um número bem reduzido de treinadores
açorianos com o nível III (UEFA A). Nenhum clube fora da região viria ou
virá recrutar um treinador UEFA B aos Açores, quando dispõe de um
grande número de treinadores UEFA A bem mais próximo e com menor custo
logístico. Por outro lado, nós ainda vivemos a herança desportiva
dos anos 1980 e 1990 em que a subida de divisão para o patamar nacional
quase que trazia implícito a contratação de um treinador de fora da
região e, de certo modo, esta cultura permanece, muito por força da
falta de habilitação necessária para um patamar nacional. Eu acredito é
que, à imagem do que já aconteceu com o mister André Branquinho - com
experiência internacional - e com o que tem acontecido com o Pedro Costa
(Caneco), existem inúmeros treinadores nos Açores que se já tivessem o
nível UEFA A já teriam tido experiências profissionais fora da região.
Portanto, é necessário mais e melhor formação para os nossos treinadores
poderem almejar outros desafios mais ambiciosos e também aí, a presença
da Associação Nacional de Treinadores de Futebol nos Açores irá
certamente ajudar.Qual vai ser a área de atuação do Núcleo dos
Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol no decorrer do
mandato para o qual foi eleito no passado dia 1 de fevereiro?Em
primeiro lugar, é representar a própria Associação Nacional de
Treinadores de Futebol junto dos treinadores dos Açores e ser,
igualmente, um interlocutor prestigiado para todas as questões que
envolvam os treinadores que já são sócios da Associação Nacional de
Treinadores de Futebol. Em termos de ação propriamente dita, temos
um caminho delineado e faseado que assenta em três pilares importantes:
aumentar o número de associados, para ganharmos mais capacidade
reivindicativa a todos os níveis; analisar as necessidades formativas
existentes para podermos providenciar ações de formação com o “selo de
qualidade” da Associação Nacional de Treinadores de Futebol e, assim,
proporcionarmos mais e melhor conhecimento aos nossos treinadores, que
no caso dos que são sócios podem obter essas formações de forma
gratuita; melhorar as condições de trabalho e de desempenho dos nossos
treinadores, seja através de um melhor processo formativo, seja por
força da razão de se aplicarem as regras e normas que já existem no
nosso país, mas que têm ficado numa espécie de esquecimento e dou um
exemplo muito claro que se prende com o não pagamento das gratificações
acordadas no vínculo que os clubes efetuam com os treinadores, em
especial com os treinadores da formação, mas que recebem os devidos
apoios do Governo Regional para o efeito. Ou seja, é necessário termos a
classe unida e lutarmos em conjunto para termos melhores condições no
desempenho da função de Treinador.Pretende a Associação Nacional
de Treinadores de Futebol, agora que dispõe de um Núcleo no arquipélago
dos Açores, organizar algum evento de cariz nacional na Região?Esta
é, de facto, uma expectativa da equipa que tomou posse e também da
direção nacional da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, mas
temos de ser coerentes e reconhecermos que os tempos que correm têm sido
muito desencorajadores para pensarmos nisso num curto prazo. Mas,
por exemplo, a Associação Nacional de Treinadores de Futebol organiza
anualmente o seu “Fórum do Treinador” que é apenas e só o maior e melhor
evento de treinadores que se realiza em Portugal (cuja adesão
ultrapassa largamente o milhar de pessoas) e um dos mais prestigiados da
Europa.Este evento ocorre sistemicamente nas cidades que ganham a
distinção de “Capital Europeia do Desporto” e, seguramente, se cidades
como Ponta Delgada (agora Capital Europeia da Cultura), Angra do
Heroísmo ou Horta vierem a candidatar-se e conseguirem ser Capital
Europeia do Desporto, teremos seguramente o Fórum do Treinador nos
Açores, com toda a projeção nacional que isso implicará e trará para a
Região. Contudo, estou certo de que muito em breve teremos, sim, um
evento formativo em cada uma das associações de futebol dos Açores, com o
cunho e a qualidade que é reconhecida à Associação Nacional de
Treinadores de Futebol e que trará, certamente, prestigiados formadores
de diferentes áreas e que são amplamente reconhecidos do nosso país.