É “muito importante” que ONU dialogue com talibãs
13 de set. de 2021, 18:26
— Lusa/AO online
“É
impossível fornecer assistência humanitária ao Afeganistão sem discutir
com as autoridades de facto do país”, declarou António Guterres em
conferência de imprensa, à margem de uma reunião ministerial em Genebra,
na qual a ONU pediu 606 milhões de dólares (cerca de 513 milhões de
euros) para ajuda humanitária a 11 milhões de afegãos, quase um terço da
população do país.“Penso
que é muito importante falar com os talibãs neste momento, por todos os
aspetos que preocupam a comunidade internacional, quer se trate de
terrorismo, dos direitos humanos, da droga ou da natureza do Governo”,
acrescentou.Quase
um mês após a tomada do poder pelos talibãs, Guterres sublinhou que a
ONU está “firmemente empenhada em fornecer ajuda humanitária à população
afegã”.“E é
claro que estamos muito preocupados em garantir que a ajuda humanitária
serve de alavanca para obter um verdadeiro compromisso dos talibãs em
todos os outros aspetos que preocupam a comunidade internacional”, como
os direitos humanos, assegurou.“Se
queremos fazer avançar os direitos humanos do povo afegão, o melhor
meio é ir em frente com a ajuda humanitária, dialogar com os talibãs e
aproveitar essa ajuda humanitária para pressionar quanto à aplicação
desses direitos”, sustentou.Mas
o responsável máximo da ONU frisou igualmente que “a ajuda humanitária
não vai resolver o problema se a economia afegã entrar em colapso”,
acrescentando: “Sabemos que o risco é enorme”.Apontando
“a gritante falta de liquidez” no Afeganistão, António Guterres instou a
comunidade internacional a encontrar mecanismos “para garantir que não
deixa a economia afegã afundar-se”, enquanto muitos países se recusam a
fornecer diretamente ajuda ao novo regime para tentar fazê-lo vergar.“Apelo
à comunidade internacional para encontrar meios para permitir uma
injeção de liquidez na economia afegã, a fim de permitir à economia
respirar e evitar um colapso que teria consequências devastadoras para o
povo afegão e poderia desencadear um êxodo maciço, com as consequências
que podem imaginar no que diz respeito à estabilidade dos países da
região”, afirmou.“Não penso que se as autoridades de um país se comportam mal, a solução seja punir coletivamente o povo”, concluiu.Entretanto,
o Governo dos Estados Unidos anunciou hoje que destinará mais 64
milhões de dólares em ajuda humanitária ao Afeganistão, mas advertiu de
que o novo regime talibã está a colocar entraves às operações de
assistência e exigiu que este permita que elas continuem de forma
segura.O
envio de ajuda humanitária, anunciado pela embaixadora dos Estados
Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfield, na conferência internacional
hoje realizada em solidariedade com o Afeganistão, dirigir-se-á
principalmente à agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e
para a Organização Mundial de Saúde (OMS).“Os
talibãs estão a obstruir e a interferir com os envios de ajuda,
proibindo o trabalho de pessoal feminino e inclusive adotando
represálias contra pessoas que entregam ou recebem assistência”, alertou
a embaixadora.Tais
factos “são inaceitáveis, destabilizam o Afeganistão e a região e não
podem continuar, pois os trabalhadores humanitários são o melhor das
nossas sociedades e devem poder fazer o seu vital trabalho de forma
segura”, acrescentou.Após
a “recente transição” no Afeganistão, nas palavras da diplomata, os
talibãs devem manter as suas promessas de proteção não só dos
trabalhadores humanitários, mas também das mulheres e meninas.Com
a ajuda hoje anunciada, o total destinado pelos Estados Unidos para
ajuda humanitária ao Afeganistão este ano ascende a 330 milhões de
dólares (cerca de 280 milhões de euros), salientou a embaixadora,
instando o resto da comunidade internacional a mostrar igual
solidariedade com a difícil situação do povo afegão.O
ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares,
anunciou hoje que Espanha destinará 20 milhões de euros em ajuda
humanitária ao Afeganistão, durante a conferência internacional
organizada pela ONU para aumentar a assistência ao país, perante a grave
crise de que padece, exacerbada por uma seca severa e pela
instabilidade política.Pelo menos sete milhões de euros avançarão já este ano, disse o ministro.“Não
vamos virar as costas a esta crise, e o povo afegão pode ter a certeza
de que continuaremos a trabalhar para que os muitos anos investidos em
criar um futuro melhor para o país não tenham sido em vão”, sublinhou
Albares.O
chefe da diplomacia espanhola recordou que Espanha está “comprometida
com o povo afegão” há muitos anos, um compromisso que se intensificou
nas últimas semanas, em que aviões militares espanhóis retiraram mais de
2.200 pessoas do país, depois de os talibãs terem tomado Cabul, a 15 de
agosto.O
ministro defendeu que a comunidade internacional tem a obrigação de
continuar a prestar ajuda ao país da Ásia central “para evitar uma crise
humanitária de enormes proporções”.Albares,
que na semana passada efetuou uma visita oficial ao Paquistão (que há
anos acolhe mais de três milhões de refugiados afegãos), frisou que,
perante a atual crise, se deve adotar uma abordagem regional, pelo que o
apoio deve estender-se a esse e outros países de acolhimento.“Também
devemos assegurar-nos de que a ajuda humanitária chega a quem deve
chegar, aos mais vulneráveis, e, entre estes grupos, estão as mulheres e
as meninas afegãs, cujos direitos fundamentais estão em perigo”,
sustentou o MNE espanhol.