Dúvidas de Bruxelas sobre SATA eram evitáveis e são situação "desprestigiante"
28 de ago. de 2020, 14:36
— Lusa/AO Online
"Toda esta situação evitável e
desprestigiante, que a nossa companhia aérea e os açorianos não
mereciam, tem responsáveis", declarou o vice-presidente do PSD/Açores
Pedro Nascimento Cabral, falando em conferência de imprensa em Ponta
Delgada.O Governo Regional, disse o
social-democrata, foi quem "colocou em risco o futuro da empresa, dos
seus trabalhadores, da economia dos Açores e do bom nome" da região.Pedro
Nascimento Cabral falava depois de se ter sabido esta semana que,
segundo a Comissão Europeia, Portugal tem de provar que os três aumentos
de capital recentes na transportadora açoriana SATA não foram ajudas do
Estado, para se garantir a conformidade total do apoio de 133 milhões
de euros pedido recentemente.O dirigente
do PSD/Açores advogou que esta investigação é "muito preocupante", mas
lembrou que a "situação a que a SATA chegou é anterior à pandemia de
covid-19", e o próprio Estado português assumiu isso em Bruxelas.Os
sociais-democratas pedem a separação das diversas empresas do grupo
SATA, "apostando na sua sustentabilidade e nos postos de trabalho", e a
SATA Air Açores, que opera dentro da região, "deverá ter capitais
exclusivamente públicos", ao passo que a Azores Airlines, que opera para
fora dos Açores, deve ter "capitais maioritariamente públicos", ou
seja, deve merecer uma privatização parcial quando os "ventos
económicos" melhorarem."O PSD/Açores
insiste para que se conheça o plano de reestruturação o mais rapidamente
possível, pois todos queremos contribuir para a compreensão da
estratégia no sentido da sobrevivência da nossa companhia", prosseguiu
Nascimento Cabral.O partido defende ainda
que o financiamento que a SATA irá receber em breve seja aplicado para
"reduzir, com urgência, o montante da dívida a fornecedores", de modo a
injetar dinheiro na economia regional e melhorar a situação financeira
de muitas destas companhias que prestam serviços à transportadora.Questionado
sobre as responsabilidades de presidente Vasco Cordeiro na
eventualidade de a Comissão Europeia considerar que os aumentos de
capital recentes foram ilegais, Pedro Nascimento Cabral diz que o
socialista deveria "no mínimo" pedir a demissão e "no máximo" responder
judicialmente sobre o tema.A posição de
Bruxelas surge na carta enviada pela vice-presidente executiva da
Comissão Europeia Margrethe Vestager, responsável pela política de
concorrência, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos
Silva, a propósito da 'luz verde' de Bruxelas a um auxílio estatal
português de 133 milhões de euros à transportadora aérea açoriana SATA.O apoio consiste numa garantia de Estado a um empréstimo junto de entidades privadas.A
agência Lusa teve acesso à missiva, datada de 18 de agosto, aquando da
decisão do executivo comunitário, sendo que na ocasião foi também
referido que seria aberta uma investigação para avaliar o cumprimento
das normas comunitárias noutros apoios públicos à companhia.Na
investigação estão em causa três aumentos de capital realizados entre
2017 e 2020 e que vão injetar até 2023 perto de 130 milhões de euros na
transportadora.Portugal advogou que o
Governo Regional dos Açores, como único acionista da SATA, atuou como um
investidor privado a operar em condições de mercado.O
país pode, todavia, invocar circunstâncias "excecionais e
imprevisíveis" cuja responsabilidade não poderia ser imputada à SATA
para justificar as injeções financeiras, reconheceu Margrethe Vestager.As
dificuldades financeiras da SATA perduram desde pelo menos 2014, altura
em que a companhia aérea, detida na totalidade pelo Governo Regional
dos Açores, começou a registar prejuízos, entretanto agravados pelos
efeitos da pandemia do novo coronavírus, que teve um enorme impacto no
setor da aviação.O atual conselho de
administração da transportadora açoriana tomou posse em janeiro e
comprometeu-se a apresentar um plano estratégico e de negócios até ao
final do primeiro trimestre do ano, mas a pandemia da covid-19 obrigou a
uma reavaliação do documento.Em julho, a
SATA sublinhou que "o contexto provocado pela pandemia teve um impacto
muito significativo" e que, devido à "paragem quase total da atividade,
foram implementadas todas as medidas possíveis ao dispor da gestão, num
cenário em que a preservação da empregabilidade era fundamental".Nos
próximos seis meses, nos termos da regulamentação comunitária, a SATA
irá, conjuntamente com o Governo dos Açores e a Comissão Europeia,
trabalhar no plano de negócios que assegure a sustentabilidade económica
e financeira do grupo e garanta os serviços de interesse económico
geral no transporte aéreo interilhas e com o exterior.