Dois milhões de cheques-dentista para crianças e jovens nunca foram usados
Hoje 17:38
— Lusa/AO Online
O alerta é
da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), que critica os médicos e as
escolas que não conseguem promover devidamente o programa que oferece
consultas e tratamentos dentários gratuitos.Desde
2008, foram emitidos mais de 7,5 milhões de vales para crianças e
jovens até aos 18 anos, mas só foram usados 5,1 milhões, segundo o mais
recente relatório da OMD, que recolheu dados até julho de 2025.Mais de dois milhões de consultas gratuitas nunca saíram do papel.O
número preocupa o bastonário da OMD que aponta vários motivos para a
“baixa utilização” deste benefício, num país onde 22% dos portugueses
não vai ao dentista por questões económicas.“O
grande problema dos cheques dentista é que são emitidos mas a população
não acede a eles, em grande parte por displicência e desconhecimento
dos médicos de família e das escolas que não têm mecanismos
verdadeiramente ativos para promover o programa”, lamentou o bastonário
Miguel Pavão em declarações à Lusa.Sofia Branco é mãe de um rapaz de 10 anos e a sua história corrobora este alerta. No
final do ano passado contactou o centro de saúde para marcar ‘check-up’
médico. A higienista oral confirmou que o Pedro tinha direito a uma
consulta gratuita, mas teria de esperar pelo documento entregue pela
escola.Em janeiro, Sofia Branco iniciou
uma troca de e-mails com a escola, que lhe disse desconhecer quando
chegariam os vales. Já em meados de fevereiro, a mãe voltou a questionar
a escola, explicando que tinha urgência uma vez que o filho tinha já
uma consulta marcada e gostaria “de poder usar aquilo a que tem
direito”.Como o agrupamento de escolas
Luís de Camões admitiu não ter “nenhuma indicação sobre o assunto”,
perguntou a quem poderia então recorrer. Os
e-mails terminaram com a escola a informá-la de que, por ser “um
programa nacional, não existe nenhuma entidade a que possa recorrer. O
cheque dentista é enviado para a escola e esta faz a distribuição do
mesmo”. Sofia Branco continua à espera do cheque-dentista.O
estudo da OMD confirma que o caso desta família não é uma exceção:
11,5% dos utentes disse não saber como obter ou usar o cheque dentista.No norte, há historias parecidas, de famílias preocupadas por ainda não terem recebido os cheques.Segundo
o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e
Escolas Públicas (Andaep), Filinto Lima, algumas escolas já distribuíram
os vales enquanto outras não, “porque ainda não os receberam, mas os
pais ficam preocupados e ligam a perguntar o que se passa”.“Os
pais começam a ficar aflitos porque sabem que há um prazo para usar o
cheque e depois têm pouco tempo para o utilizar”, acrescentou Filinto
Lima.Uma das principais razões da
não-utilização dos vales é precisamente o facto de perderem a validade.
Foi pelo menos essa a resposta de 23,1% das pessoas que não beneficiaram
deste direito, segundo o relatório da OMD.Para
o bastonário, a emissão dos cheques dentista já devia ter sido
desmaterializada, mas “esta é uma promessa que ainda não passou do
papel”.Miguel Pavão critica também a
inação do Governo, lembrando que o Programa Nacional de Promoção de
Saúde Oral terminou em dezembro de 2025 e ainda não foi apresentado um
novo.O bastonário critica o Governo por
continuar sem fazer um estudo nacional das prevalências das doenças
orais, lembrando que o último tem mais de uma década: “Como vão desenhar
uma nova política se o estudo que deveria consubstanciar as
necessidades e orientar o programa não é feito?”, questiona.“Este
ministério da Saúde vai lidando com os assuntos numa estratégia
mediática. Não é um Governo com uma visão reformista. Já deveria ter
sido lançado outro programa nacional, era suposto acontecer dia 19, mas
acabei de saber que a secretária de estado não o vai lançar”, lamentou.A
Lusa questionou a Direção-Geral da Saúde, o Serviço Nacional de Saúde e
o Ministério da Saúde, mas nenhuma das entidades respondeu às
perguntas.