Dois em cada três homens vítimas de violência não pedem ajuda, alerta APAV
15 de out. de 2025, 11:47
— Lusa/AO Online
As
estatísticas mais recentes da APAV sobre vítimas no masculino, relativas
ao período entre 2022 e 2024, dão conta que a associação apoiou 10.261
pessoas, o que representa um aumento de 23% no decorrer destes três
anos.Em entrevista à agência Lusa, Daniel
Cotrim explicou que esta evolução tem a ver com uma maior
consciencialização para o tema da violência, mas lembrou que “há sempre o
outro lado da moeda”.“Por cada uma destas
vítimas apoiadas, destas 10.200 vítimas do sexo masculinas apoiadas,
nós sabemos, porque é o que os estudos de incidência e prevalência nos
dizem, que há sempre pelo menos duas pessoas, dois homens, que não vão
denunciar a situação”, revelou.Significa que o número de vítimas masculinas a pedir ajuda à APAV poderia ultrapassar as 30.700.“Temos
sempre a noção de que a realidade é muito superior àquela que nós vemos
através dos números que nos são apresentados através dos pedidos de
ajuda que nos chegam”, afirmou, apontando que, por esse motivo, “é
sempre complicado” afirmar que a violência está a aumentar.Segundo
o responsável, esta dificuldade em pedir ajuda tem também a ver com a
“ideia profundamente estereotipada” e “cheia de preconceitos” que a
sociedade ainda tem sobre a condição de vítima, em que “vítimas são as
mulheres” e a “palavra vítima está muito conotada, de forma errada, com
uma ideia de fragilidade e vulnerabilidade”.“O
que a sociedade percebe é que os homens não são frágeis nem são assim
tão vulneráveis e o que estes dados nos vêm mostrar é exatamente o
contrário disto, ou seja, os homens são tão vulneráveis a situações de
vitimação como as mulheres, portanto não é uma questão de género”,
salientou.Por outro lado, explicou que a
vergonha e o medo do julgamento de terceiros também dificultam falar
sobre violência, o que, defendeu, remete para as questões da
masculinidade e do que é ou não é ser-se homem.Apontou
que os três crimes mais denunciados à APAV remetem “para questões de
fragilidade e de vulnerabilidade”, desde logo violência doméstica, com
11.906 crimes denunciados, mas também crimes de ofensa à integridade
física (885) e crimes de ameaça/coação (731).Por
outro lado, 36,6% das vítimas masculinas que pediram ajuda à APAV foram
alvo de violência continuada, um dado explicado pelo facto de “a grande
maioria dos pedidos de ajuda de homens acontecerem no âmbito da
violência doméstica” e de a “violência doméstica ser um crime
continuado”.Daniel Cotrim explicou que, no
caso da violência doméstica, “a escalada da violência é muito rápida”,
com casos de homicídios, e que é esse ciclo de violência que está por
trás da demora na apresentação de denúncia, havendo registo de 19,8% de
vítimas que demoram entre dois e seis anos e 10,9% que precisa de doze
anos ou mais.Associada à escalada de
violência vem também a vergonha: “não é natural na cabeça dos homens uma
mulher ser agressora, portanto um homem tem a capacidade alegadamente
de se defender, mas isto é o mito, é o estereótipo”, sublinhou.A
mesma ideia de masculinidade explica que o primeiro contacto destas
vítimas com o sistema de proteção seja através da APAV e não com a
polícia ou com um tribunal, tendo Daniel Cotrim admitido que o sistema
“não é condescendente com os homens” e ainda tem “muitos preconceitos à
mistura”.Para o responsável, o trabalho
para o futuro tem de continuar a passar pela educação e pela prevenção,
investindo na igualdade de género nas escolas e falando sobre o que são
os papéis dos homens e das mulheres, de como eles se complementam, ao
mesmo tempo que é preciso encarar “a figura masculina como vítima e
olhar para isto de forma perfeitamente natural” e “desmontar as ideias
erradas da masculinidade tóxica”.Para
Daniel Cotrim, este é um trabalho que tem vindo a ser feito, mas que tem
de ser continuado, salientando que os discursos de misoginia estão cada
vez mais presentes e alertando para os jovens adolescentes que têm
“acesso direto a este tipo de discurso”.