Discursos de ódio ganham visibilidade nas redes sociais
Hoje 09:55
— Daniela Arruda
“Erro 404 - Página não encontrada” é a mensagem que aparece quando uma página não pode ser encontrada na internet. Mas e quando as pessoas e as suas experiências existem, estão nas redes sociais e, mesmo assim, não conseguem ser encontradas?É sobre isto que a investigadora Ana Maria Brandão, da Universidade do Minho, explorou na apresentação “Erro 404: Algoritmos, género e (im)possibilidade de ser no digital”, no XV Encontro de Sociologia dos Açores, na Universidade dos Açores.As redes sociais escolhem e divulgam publicações, e a forma como essas plataformas são geridas pode influenciar e também dificultar a visibilidade de mulheres e pessoas LGBTQIA+.Por outro lado, conteúdos onde reinam discursos de ódio e de violência conseguem chegar a um grande número de pessoas. E qual é a razão? Por serem polémicos, geram interações e, consequentemente, lucros.Portanto, uma publicação pode efetivamente existir e, mesmo assim, não ter visibilidade. Ou seja, pode aparecer no feed de poucas pessoas, enquanto outras mensagens chegam a milhares de utilizadores por gerarem comentários, partilhas e reações.Publicação contra a violência pode ser eliminadaO interesse por este tema surgiu quando uma publicação da própria investigadora foi eliminada das redes sociais. No Dia Internacional da Mulher, publicou um vídeo da artista Capicua, com uma adaptação de uma música de Sérgio Godinho sobre a condição das mulheres.A publicação foi interpretada como um apelo à violência, quando, na realidade, denunciava a violência contra as mulheres. Por isso, foi logo barrada, não chegou sequer a ser publicada.Depois, a investigadora pediu a revisão da decisão e o conteúdo acabou por ser aceite. Mas o que é certo é que esta situação mostra que os algoritmos podem ter interpretações erradas das mensagens e acabar mesmo por barrar a sua divulgação.Discursos de ódio geram lucro às plataformas?Além dos conteúdos bloqueados, há ainda publicações que estão online, mas que não chegam a uma grande parte dos utilizadores. As plataformas selecionam aquilo que aparece no feed de cada pessoa, tendo em conta os seus interesses e a potencialidade de os conteúdos gerarem interação. A este sistema chama-se algoritmo.Por isso, mensagens polémicas e discursos misóginos, que expressam hostilidade e desprezo pelas mulheres, podem alcançar uma grande audiência, mesmo nos perfis das pessoas que não concordam com o que está a ser dito. Só que como geram comentários e partilhas, estas publicações podem acabar por chegar a mais utilizadores. Isto acontece hoje nas redes sociais.Esta dinâmica do algoritmo tem consequências. No caso das mulheres e das pessoas LGBTQIA+, as suas experiências e identidades têm de derrubar barreiras para chegar ao espaço público digital. Quando determinados grupos aparecem menos, também têm menos oportunidades de dar a conhecer as suas realidades e de participar no debate público.Dá para contornar o bloqueio?Tendo em conta a possibilidade de a publicação ser bloqueada ou perder visibilidade, os utilizadores podem adaptar o que publicam. No texto, por exemplo, podem evitar determinadas palavras ou substituí-las por outras na tentativa de contornar os filtros das plataformas.A investigadora refere também que alguns movimentos, nomeadamente os que estão ligados à extrema-direita, parecem conseguir adaptar os seus discursos ao funcionamento dos algoritmos, o que faz com que determinadas mensagens continuem em circulação.Portanto, a questão é perceber por que razão alguns conteúdos conseguem alcançar tanta visibilidade, enquanto outros são bloqueados ou ficam praticamente invisíveis.A mensagem “Erro 404” ilustra esta problemática: aquilo que não aparece acaba também por ser mais difícil de conhecer. E aquilo que não faz parte da rotina, que é desconhecido, até longínquo e distante, pode causar estranheza. E as redes sociais poderiam ser uma ferramenta útil para humanizar, para aproximar grupos sociais, através da partilha de experiências, realidades e pessoas diferentes.Nesse sentido, a investigadora chama a atenção para a necessidade de perceber quem consegue ter voz e quem acaba por ficar à margem, mesmo no mundo digital.