Diretor do programa das hepatites recomenda aumento de testes
Hoje 11:15
— Lusa/AO Online
Em
entrevista à agência Lusa, no Dia Mundial das Hepatites e quando se
sabe que Portugal registou um aumento expressivo de casos de hepatite A,
que passaram de 319 em 2024 para 1.164 em 2025, Rui Tato Marinho
afirmou que em causa estão doenças que não apresentam sintomas, pelo
que, para além das vacinas e dos tratamentos, os testes assumem um papel
relevante.“A nossa mensagem é: façam os
testes pelo menos uma vez na vida. Podem incluir a hepatite A, a B e a
C, além da Delta que é mais rara. A maior parte destas doenças são
assintomáticas, são silenciosas. Portanto, fazendo estes testes,
chamados marcadores do vírus, que são análises muito simples, às vezes
até podem ser testes rápidos, a pessoa fica a saber se tem ou não, se
teve ou não”, referiu.O relatório de 2025
do Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde
(DGS), hoje tornado público, aponta para mais 845 casos de hepatite A
confirmados no último ano, face a 2024, um crescimento de 265%.O
documento atribui esse aumento de casos a dois surtos que tiveram
início em 2024, um dos quais associado à transmissão de pessoa a pessoa,
influenciado por condições deficitárias de salubridade, e outro ligado à
transmissão por contacto sexual, afetando predominantemente homens
entre 18 e 44 anos.“Claro que quando um
dado sai fora da normalidade é preocupante, mas em termos de saúde
global, não será dos casos mais preocupantes porque a mortalidade é
muito baixa e esta é uma doença que não deixa sequelas para toda a vida.
Na grande maioria dos casos não provoca cirrose, nem cancro de fígado. É
a hepatite menos grave”, disse Rui Tato Marinho.Recordando
que a DGS formou, há uns anos, uma comissão de crise que está atenta a
estes números, o especialista também valorizou a vacina para a hepatite A
como “um instrumento muito importante para o controlo destas crises”.“Esta vacina é eficaz. É uma arma extremamente importante para controlar as crises”, sublinhou.Sobre
as causas, Rui Tato Marinho confirmou que estas crises acontecem num
mesmo agregado familiar e num determinado grupo populacional, alertou
para situações de condições higiénicas deficientes e apontou para “um
fenómeno” sobre o qual ainda se está a estudar a dimensão em Portugal.“Ainda
não sabemos bem, mas sabemos que também existe cá um fenómeno que é o
sexo em grupo e com recurso a substâncias químicas. Tem sido falado. E é
um dos fatores de risco para se apanhar alguns tipos de hepatite,
nomeadamente a hepatite A”, contou.Apesar
dos números deste relatório, Portugal é considerado um país de baixa
endemicidade para a hepatite A, apresentando, de forma recorrente,
valores anuais inferiores a um caso confirmado por 100.000 habitantes.Elogiando
a vacina e o tratamento em Portugal, Rui Tato Marinho recordou que a
vacina para a hepatite A não está classicamente no Programa Nacional de
Vacinação, mas o número de doses administradas foi o maior de sempre.“Há
4 ou 5 anos eram 30 mil doses, neste momento ultrapassaram as 100 mil, o
que mostra na realidade a atenção e a preocupação que tem gerado”,
reagiu, acrescentando outro alerta: “Também é importante chamar a
atenção dos médicos porque devem notificar os casos que aparecem, até
para tomar medidas de saúde pública”.Quanto
à hepatite B, o relatório da DGS refere que também se registou um
aumento do número de casos confirmados, que passaram dos 271 em 2024
para os 354 em 2025, representando um crescimento de 31%, razão pela
qual o diretor do PNHV é direto: “A vigilância nunca deve abrandar”.“Também
temos a questão dos migrantes porque alguns vêm de países de risco mais
elevado que Portugal, daqueles que têm o vírus de forma crónica. Os
testes são muito importantes e a vacina está incluída no Programa
Nacional de Vacinação já há 20 anos, é bastante bom”, acrescentou.Já
em relação à hepatite C, o documento refere que foi introduzida em 2024
uma alteração metodológica, condicionando uma quebra de série, que pode
justificar o aumento do número de notificações registadas em 2024 e
2025.Dez anos depois do acesso universal
ao tratamento da hepatite C em Portugal, mais de 38 mil pessoas tiveram
acesso ao tratamento, com taxas de cura próximas dos 97%.Boas notícias que Rui Tato Marinho reforça com o elogio aos medicamentos gratuitos, “caso quase único no mundo”, sublinhou.“Ninguém
fica de fora, mesmo que seja consumidor de drogas, sem abrigo,
alcoólico, ninguém fica de fora. Temos que pensar em termos de saúde
pública (…). Temos agora também uma nova população dos migrantes. A
percentagem de hepatite C não será muito elevada, mas podem não ter tido
acesso ao melhor tratamento nos seus países e aqui poderemos ajudar”,
referiu.À Lusa, o diretor do PNHV quis
também deixar alertas sobre doenças no fígado, “um órgão que não dá
sinal, mas sem ele não há vida”.“São
análises muito simples e baratas que já se fazem para a diabetes, ou
para o colesterol. E atenção ao ‘fígado gordo’, ao peso a mais, ao risco
de cirrose e o cancro do fígado. Neste momento estamos quase em 15
milhões de análises feitas por ano”, concluiu.As
hepatites virais continuam a representar importante causa de doença
hepática crónica, cirrose e carcinoma hepatocelular, sendo os vírus das
hepatites B e C responsáveis pela maioria da mortalidade associada a
esta doença.