Direitos humanos sob ataque em grande escala pelos mais fortes, denuncia Guterres
Hoje 12:35
— Lusa/AO Online
“O
Estado de direito está a ser substituído pelo Estado de força. E este
ataque não vem das sombras nem é uma surpresa. Está a acontecer à vista
de todos e, muitas vezes, liderado por aqueles que detêm o maior poder.
Em todo o mundo, os direitos humanos estão a ser deliberada e
estrategicamente reprimidos, e, por vezes, com orgulho”, declarou
Guterres, intervindo, em Genebra, na sessão de abertura da 61ª sessão do
Conselho de Direitos Humanos da ONU.O
secretário-geral advertiu que as consequências deste ataque “são
devastadoras”, apontando que as pessoas sofram assim “duas vezes:
primeiro com a violência, a opressão ou a exclusão, e, depois, novamente
com a indiferença do mundo”.“Vivemos num
mundo onde o sofrimento em massa é ignorado, onde os seres humanos são
usados como moeda de troca, onde o direito internacional é tratado como
um mero inconveniente. Os conflitos multiplicam-se e a impunidade
tornou-se contagiosa. Isso não se deve à falta de conhecimento,
ferramentas ou instituições. É o resultado de escolhas políticas”,
deplorou o antigo primeiro-ministro português.Segundo
António Guterres, “esta crise de respeito pelos direitos humanos não é
um caso isolado” e “reflete e amplia todas as outras fraturas globais”,
já que “as necessidades humanitárias estão a explodir, enquanto o
financiamento entra em colapso”, “as desigualdades estão a aumentar a
uma velocidade impressionante, os países estão a afogar-se em dívidas e
desespero, e o caos climático está a acelerar”.O
líder das Nações Unidas sublinhou também que “a tecnologia,
especialmente a inteligência artificial, está a ser cada vez mais
utilizada de formas que suprimem direitos, aprofundam a desigualdade e
expõem pessoas marginalizadas a novas formas de discriminação, tanto
online como offline”. “Em todas as
frentes, aqueles que já são vulneráveis estão a ser empurrados ainda
mais para as margens. E os defensores dos direitos humanos estão entre
os primeiros a serem silenciados quando tentam alertar-nos”, lamentou,
reforçando que, “nesta ofensiva coordenada, os direitos humanos são as
primeiras vítimas”. Expondo um retrato
devastador a nível global, o secretário-geral da ONU apontou que é hoje
evidente um “aperto cada vez maior do espaço cívico”, com “jornalistas e
ativistas presos, ONG [Organizações Não-Governamentais] fechadas,
direitos das mulheres em retrocesso, direitos das crianças ignorados,
pessoas com deficiência excluídas e democracias em erosão”. “O
direito de reunião pacífica é esmagado – e condeno mais uma vez a
recente repressão violenta aos protestos no Irão. Os migrantes são
perseguidos, detidos e expulsos, com total desrespeito pelos seus
direitos humanos e pela sua humanidade. Os refugiados são transformados
em bodes expiatórios. As comunidades LGBTIQ+ são difamadas. As minorias
e os povos indígenas são alvo de ataques. As comunidades religiosas são
atacadas”, prosseguiu.Aludindo à sua
história pessoal, na última vez que discursou como secretário-geral na
abertura de uma sessão do Conselho de Direitos Humanos, apontou que
“crescer sob a ditadura de Salazar” lhe ensinou que “a negação dos
direitos humanos corrói todos os aspetos da sociedade.“Quando
o Conselho de Segurança está paralisado, quando os vetos servem de
escudo político, quando as rivalidades geopolíticas prevalecem sobre a
proteção dos civis, o resultado é o mesmo: a impunidade espalha-se, o
sofrimento multiplica-se e os direitos humanos são pisoteados”, disse. “Precisamos de um Conselho de Segurança que reflita o mundo de hoje, não o de 1945”, acrescentou.