Diocese disponível para ajudar na crise da habitação

Hoje 17:22 — Susete Rodrigues

A Diocese de Angra mostrou-se disponível para colocar o património da Igreja ao serviço das pessoas mais desfavorecidas, tendo em conta a crise que se vive na habitação nos Açores.De acordo com Carmo Rodeia, porta-voz da Diocese de Angra, a “Igreja está ao serviço das pessoas e pode ter um papel nesta crise”. Em declarações à RTP/Antena 1 Açores, à margem de uma mesa-redona que debateu a crise na habitação nos Açores, Carmo Rodeia referiu que “esta realidade do património da Igreja é diferente da que era há uns anos atrás, mas naquilo que for possível concorrer para efetivamente colocar, não aos preços especulativos, mas colocar o património da Igreja ao serviço das pessoas mais desfavorecidas, sobretudo. É aquilo que temos vindo a fazer e é aquilo que continuaremos a fazer”. A porta-voz da Diocese de Angra, salientou ainda que a falta de habitação “é um problema de dignidade humana”. “Não somos governo, não temos pretensão a sê-lo, não temos receitas milagrosas. Queremos apenas provocar o debate e a habitação é uma ferida humana neste momento para jovens, é uma ferida humana para idosos”, frisou.Foi precisamente o direito à habitação digna, a dificuldade de acesso a habitação a preços compatíveis com os rendimentos das famílias e os desafios que se colocam à permanência das pessoas nas cidades que esteve em debate na mesa-redonda promovida pela Comissão Fé e Cultura do Instituto Católico de Cultura da Diocese de Angra, em parceria com a PDL26, e que reuniu os arquitetos Helena Roseta e Nuno Costa e o sociólogo Fernando Diogo.Helena Roseta considerou a crise habitacional “gravíssima” e alertou para o impacto que tem tanto nos jovens como nos mais velhos, referindo que o “que está a falhar em Portugal não é falta de casas, é não haver habitação acessível”. Citada em nota de imprensa da Igreja Açores, a antiga deputada e arquiteta defendeu uma maior regulação do mercado imobiliário, questionando o cumprimento das responsabilidades do Estado nesta matéria.Por seu turno, Nuno Costa, presidente do Conselho Diretivo da Ordem dos Arquitetos nos Açores defendeu que a crise habitacional deve ser analisada numa perspetiva mais abrangente.“Uma sociedade que é economicamente dinâmica pode ser socialmente injusta. Temos que olhar para os diferentes fatores que têm impactos nas políticas de habitação, no custo das casas, e tentar alinhar essas diferentes políticas para convergirem no sentido de resolver o problema”, defendeu, citado na mesma nota de imprensa.Nuno Costa, que é coautor de um estudo resultante de um seminário realizado há um ano sobre habitação, alertou para os riscos de apostar em soluções de construção acelerada sem avaliar as suas consequências e os custos associados.Fernando Diogo, sociólogo e professor na Universidade dos Açores chamou a atenção para as consequências demográficas da crise, num contexto em que as “dificuldades em encontrar casa podem comprometer a autonomia dos jovens, a constituição de famílias e a fixação de população nos territórios”. O sociólogo defendeu que as habitações devem ser “dimensionadas em função das necessidades atuais das famílias, que apresentam estruturas diferentes das de gerações anteriores”.Fernando Diogo aponta as cooperativas de habitação como uma das respostas a incentivar. “Estas soluções podem permitir que as próprias pessoas participem nos processos de criação de habitação e assumam um papel mais ativo na procura de respostas para as suas necessidades”, disse, citado na nota de imprensa.Já o diretor regional daHabitação, Daniel Pavão,colocou uma questão aos oradores, sublinhando que a discussão sobre o problema da habitação está muito politizado quando, na verdade, o problema é “matemático”. “Faltam 2 mil casas nos Açores. Estamos disponíveis para prescindir de alguma coisa de forma a que o governo possa investir 400 milhões nestas casas, em oito anos?”, interpelou o responsável, lembrando que o problema não é só de investimento público, mas também exige uma discussão sobre política de solos, por exemplo.A nota de imprensa da Igreja Açores diz ainda que entre as soluções discutidas estiveram a disponibilização de terrenos para construção a custos controlados, as parcerias entre entidades públicas e privadas, o incentivo às cooperativas e o reforço das políticas de reabilitação urbana. Foi igualmente sublinhada a importância de evitar a concentração de habitação social em zonas isoladas, promovendo a integração das famílias nas comunidades existentes.