Diniz Borges leva Madalena Férin a leitores de Língua inglesa
2 de set. de 2024, 15:54
— Sara Lima Sousa
No próximo dia 4 de setembro, pelas 21h30, decorrerá o lançamento do
livro “Dripping Words – Selected Poetry from Madalena Férin”, poetisa
açoriana por quem Diniz Borges, responsável pela seleção, organização e
tradução dos poemas, tem uma enorme admiração, numa publicação da Bruma
Publications e da editora Letras Lavadas.O evento terá lugar na
Biblioteca Municipal de Vila do Porto, em Santa Maria, “na ilha onde
Madalena Férin passou a sua infância e juventude, e à qual sempre esteve
ligada”, segundo o tradutor em conversa com o Açoriano Oriental.“Há
uma necessidade de termos mais vozes dos Açores traduzidas para a
Língua inglesa, para podermos chegar aos açor-descendentes que já não
leem em português, que são a vasta maioria da nossa diáspora nos Estados
Unidos e, talvez, também no Canadá”, explicou.A seleção dos poemas
foi subjetiva. “Sou leitor da poesia da Madalena Férin há mais de 30
anos. Depois de várias releituras, fiz uma seleção baseada nos poemas
que achava que teriam mais impacto para o leitor de Língua inglesa”,
afirmou.Muitos dos poemas têm um significado especial para Diniz
Borges, mas exemplificou com “Ciclone”, que é um poema da ilha e, “como
toda a poesia da Madalena, um poema do mundo”, um “poema corajoso”, com
uma amálgama de metáforas que “interroga e dá respostas”. Na sua
ótica, “nunca foi tão relevante a poesia de Madalena Férin como nos dias
de hoje”, de uma forma particular para os leitores nos Estados Unidos,
onde atravessam um “assalto nocivo às mulheres”, referiu.“A poesia
da Madalena está repleta de gritos que apelam à libertação das mulheres
de um mundo extremamente machista. Apela à justiça social, necessária em
todos os países do mundo. Apela à liberdade, uma liberdade íntima, a
liberdade dos seres humanos e de tudo que nos rodeia”, acrescentou.Quando
questionado sobre o título do livro, admitiu que a escolha “não foi
fácil, uma vez que tinha outros”, porém, considerou este, “Dripping
Words” (Palavras a pingar), o mais apropriado porque “cada leitura e
releitura desta poesia deixa-nos com a imagem de palavras que estão
sempre a gotejar sentimentos e beleza”.O processo de tradução na poesia e a sua importânciaPara
Diniz Borges, a barreira da Língua “não pode ser fator para não se
levar a magnífica produção literária dos Açores” ao resto do mundo.“Como
já o disse Natália Correia sobre a tradução de poesia, é tentar trazer
ao leitor de Língua inglesa o poder poético de cada poema,
reajustando-o, através da linguística cultural ao mundo de quem o vai
ler”, referiu o açoriano. Contudo, há desafios no processo de tradução.
“É um trabalho ingrato, que nem sempre se consegue, mas tenta-se”,
admitiu.Espera que os leitores de Língua inglesa fiquem a conhecer a
“riqueza da criatividade poética das nossas ilhas” e, de uma forma
particular, as novas gerações de açor-descendentes, que na maioria dos
casos “desconhecem a riqueza da nossa literatura”. E, pretende utilizar
vários poemas desta coleção num curso que leciona na universidade
(Açores: História, Cultura e Literatura).Na perspetiva de Diniz
Borges, a poesia da Madalena Férin “merece mais leitores, quer sejam
açor-descendentes, quer sejam da miríade de culturas que compõem o mundo
norte-americano, que comunicam em inglês”, partilhou. Diniz Borges
conheceu a obra de Madalena Férin no começo da década de 90. A sua
reação foi sempre “de espanto, pela beleza, pela intimidade, pela
coragem e pela sublimidade da sua língua poética”, concluiu. Ligação com os Açores está sempre presenteDiniz
Borges tem 65 anos e é natural da Praia da Vitória, na ilha Terceira.
Aos 10 anos, emigrou com os pais. Atualmente, é professor na
Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, onde também dirige o
Instituto PBBI (Portuguese Beyond Borders Institute), que tem uma forte
ligação aos Açores.Dá aulas há três décadas e tem-se dedicado a
estudos relacionados com a diáspora, com a identidade açoriana em terras
americanas, literatura de açor-descendentes, e à tradução literária,
desde 2002. Trabalhou ainda na agricultura, no comércio e na comunicação
social em Língua portuguesa, na Califórnia.