Dificuldades marcaram contactos entre comissão para estudo dos abusos e hierarquia católica
14 de fev. de 2023, 10:51
— Lusa/AO Online
Os responsáveis de duas dioceses – Beja e Setúbal – nem responderam à comissão.Criada
por decisão da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em novembro de
2021, a Comissão liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht desde o
início entendeu ser “importante ouvir, através de entrevistas, os atuais
líderes da Igreja Católica portuguesa”.“É
certo que o impulso dado pelo Papa Francisco constituiu uma forte
pressão externa para a tomada de iniciativa por parte dos bispos
portugueses; mas a decisão final de criar uma Comissão Independente foi
da própria CEP e esse protagonismo, coletivo e individual, era um objeto
a merecer atenção”, reconhece o relatório da comissão.No
documento, o grupo liderado por Pedro Strecht não esconde algumas
dificuldades sentidas no relacionamento com a hierarquia católica, desde
logo ao revelar que, ao contrário das vítimas, que se dirigiram à
comissão, “o esforço para aceder a esta franja da Igreja Católica partiu
da Comissão”.“Aliás, esse é um dado
curioso que vale a pena registar: com uma exceção (o Serviço de Escuta
dos Jesuítas em Portugal, que imediatamente após a sua criação nos
enviou um email de incentivo e disponibilidade total para participar no
Estudo), a Comissão não recebeu de qualquer outro membro ou estrutura da
Igreja Católica um contacto espontâneo mostrando vontade ou interesse
em colaborar”, avança o relatório.Segundo a
equipa de Strecht, nos meses iniciais os membros da hierarquia da
Igreja “pareciam remeter-se a uma mera posição de espera, exterioridade e
distância”, o que levou a que, em fevereiro de 2022, a comissão
lançasse aos 18 bispos portugueses titulares de dioceses e aos três
administradores diocesanos das dioceses em sede vacante, por correio
eletrónico, um convite “para uma reunião (por 'Zoom', sendo mais
prático) com o objetivo de aprofundar diversos temas como: o percurso
como homem de fé; as características da diocese que coordena; o seu
entendimento da relevância do problema dos abusos sexuais na Igreja
portuguesa; a organização dos arquivos históricos da diocese e o
processo de acesso ao espólio que contêm (para os anos 1950-presente)”.E
aqui começaram a revelar-se as dificuldades: “Quatro deles responderam
nas primeiras 36 horas, mostrando-se inteiramente disponíveis e
sugerindo datas para a reunião. Outros quatro, certamente apreensivos
com o tópico relativo ao acesso aos arquivos históricos, responderam que
reservariam a sua resposta sobre esse ponto para depois de uma reunião
do Conselho Permanente da CEP dali a cerca de três semanas ‘com alguém
dessa Comissão’”.“Chegou-nos, ainda,
‘feedback’ negativo pelo modo informal como o convite fora feito aos
bispos: contacto direto com cada um deles, por email, assinado por um
coletivo (Comissão Independente) e propondo um contacto via Zoom”,
refere o relatório.Segundo o documento,
“os restantes cinco responderam ao longo das duas semanas seguintes. Ao
todo, e à primeira chamada, responderam doze bispos e um administrador
diocesano. Seguiu uma segunda a 17 de março de 2022 (dois dias após a
realização da referida reunião em Fátima). Todos os restantes bispos,
com exceção de um, responderam ao email e aceitaram o convite para a
reunião. As entrevistas decorreram entre 03 de março e 19 de maio de
2022”.A comissão dá ainda conta de que “o
administrador diocesano de Bragança-Miranda (em sede vacante) delegou a
entrevista no presidente da Comissão Diocesana de Proteção de Menores e
Pessoas Vulneráveis e que um bispo (Beja) e um administrador diocesano
(Setúbal) nunca responderam às chamadas da Comissão”.Quanto
à forma como decorreram as entrevistas, a comissão sentiu “tensão” em
três situações: ora por ser via ‘Zoom’ (‘estas conversas não são para se
ter em Zoom’); ora porque consideravam ‘disparatado’ fazer perguntas
sobre a sua infância e vida pessoal; ora porque havia pressa de terminar
a entrevista, pois havia ‘pessoas à espera’ para serem recebidas”.Segundo
o documento, foi também alvo de censura a realização de uma conferência
de imprensa no dia 12 de abril (na data dos três meses de funcionamento
da Comissão Independente), em plena Semana Santa. Um dos bispos
comentou, com severidade: ‘Todos os anos, na quarta-feira santa, há
notícias contra a Igreja. Estão sempre a acusar os bispos’”.Já
quanto aos superiores e superioras gerais de congregações religiosas, o
ambiente nos contactos foi diferente, com 13 dos 16 contactados a darem
resposta positiva à comissão.Quanto aos que responderam afirmativamente, “a adesão ao convite foi (…) mais imediata e incondicional”.“Com
todos, sem exceção, o ambiente criado durante a entrevista foi
excelente. Ao contrário dos bispos, apesar de tudo mais formais e
racionais no trato e no uso da linguagem, os superiores e as superioras
gerais deixaram mais frequentemente soltar as suas emoções e dúvidas, o
seu humor e, sobretudo, a sua perspetiva crítica face ao conservadorismo
da hierarquia da Igreja portuguesa, na sua linguagem, na atitude de
certos bispos”, acrescenta o relatório.A
Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja
Católica em Portugal iniciou a recolha de testemunhos de vítimas em 11
de janeiro de 2022, tendo validado 512 denúncias das 564 recebidas, o
que permitiu a extrapolação para a existência de um número mínimo de
4.815 vítimas nos últimos 72 anos.A
Conferência Episcopal Portuguesa vai tomar posição sobre o relatório, de
quase 500 páginas, numa Assembleia Plenária agendada para 03 de março,
em Fátima.