Diferenças de preço da água, saneamento e resíduos podem ascender a 1.500 euros por ano
4 de jul. de 2024, 10:21
— Lusa/AO Online
Promovido
pela Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), o Estudo dos
Serviços Básicos resulta da análise dos tarifários de abastecimento de
água, saneamento e resíduos, praticados à data de 31 de outubro de 2023
em todos os municípios portugueses, inclusive as ilhas, concluindo que
“existe uma grande falta de igualdade no preço destes serviços”.Em
declarações à agência Lusa, a responsável pelo estudo, Filipa Baker,
sublinhou que há “uma grande injustiça em termos de preços” cobrados por
estes três serviços básicos em Portugal, explicando que a análise é
feita “em dois prismas”, a dimensão familiar e os tarifários dos 308
municípios portugueses.“Famílias maiores,
no geral, acabam por pagar por metro cúbico de consumo um valor mais
elevado do que se vivessem numa família mais pequena”, afirmou Filipa
Baker, referindo que a maioria dos tarifários de abastecimento de água é
escalonada de forma a penalizar o desperdício, mas sem ter em conta o
número de pessoas do agregado familiar, “penalizando fortemente as
famílias numerosas”.No abastecimento de
água, que é o serviço “mais oneroso para as famílias”, as diferenças
nacionais no total da fatura anual podem ascender a 1.500 euros para o
mesmo consumo, “por exemplo, se uma família de 10 pessoas viver em Lajes
das Flores, nos Açores, paga 53,52 euros/ano, mas se residir em Tábua,
Santa Comba Dão ou Mortágua o valor fixa-se em 1.596,67 euros/ano”.Relativamente
ao saneamento, a discrepância de preço está “próxima dos 1.000 euros”,
comparando o caso de uma família de 10 pessoas a viver em Mortágua
(40,22 euros/ano) com o de uma que viva na Covilhã (1.027,31 euros/ano).Quanto
ao serviço de resíduos sólidos, o estudo da APFN identificou uma
diferença de 400 euros/ano para o mesmo consumo, no caso de uma família
de 10 pessoas, que em Sever do Vouga paga 17,20 euros/ano, enquanto em
Tavira paga 423,75 euros/ano.De acordo com
o estudo, entre municípios do mesmo distrito também se verificam
“enormes discrepâncias”, nomeadamente no Porto, no caso de uma família
de 10 elementos, na fatura anual referente à componente variável, em que
no abastecimento de água se viver em Lousada paga 128 euros, mas em
Valongo paga 1.185 euros; no saneamento pode variar entre 97 euros em
Matosinhos e 703 euros em Gondomar; e nos resíduos pode beneficiar de
tarifa variável nula em Paredes ou no Marco de Canaveses, enquanto na
Maia paga 296 euros.Em relação à
composição familiar, o estudo revela que “Gondomar é um dos municípios
portugueses mais discriminatórios nos serviços de abastecimento de água e
saneamento”, porque uma pessoa que viva numa família de sete pessoas
paga mensalmente pela componente variável do abastecimento de água 3,2
vezes mais e pelo saneamento 2,9 vezes mais do que se viver sozinho.Também
no distrito do Porto, Póvoa de Varzim é dos municípios portugueses
“mais justos relativamente à dimensão familiar”, uma vez que um casal
com seis filhos paga, por cada membro, o mesmo pelo abastecimento de
água, saneamento e resíduos (tarifa variável) do que uma pessoa a viver
sozinha.“Muitas vezes, na maioria dos
casos, o tamanho da família que habita na casa não é considerado” nos
tarifários, sobretudo no abastecimento de água e saneamento, o que
prejudica as famílias numerosas, afirmou a responsável pelo Estudo dos
Serviços Básicos, defendendo que a penalização do desperdício pode ser
feita “considerando um consumo fixo por pessoa e não por família”, com a
aplicação do padrão mensal de consumo internacional de água de 3,6
metros cúbicos por pessoa a todos os agregados.Filipa
Baker referiu ainda que os atuais tarifários estão construídos para
penalizar o desperdício em famílias de tamanho médio, com três pessoas,
mas o país, “infelizmente, cada vez tem famílias mais pequenas e mais
pessoas a viverem isoladas”, sendo que o conceito de família numerosa
tem sido aplicado a partir de cinco elementos.Neste
âmbito, a APFN defende a implementação de tarifários familiares – 234
municípios já têm no abastecimento de água, 212 no saneamento e 54 nos
resíduos –, para corrigir a “injustiça” em termos de valores cobrados, e
a redução das disparidades acentuadas no preço base destes serviços
básicos, no sentido de “igualar a situação ao nível do país”, apesar de
existirem “muitos condicionalismos geográficos”.