Dezenas subscrevem queixa sobre operação policial no Martim Moniz
26 de dez. de 2024, 16:25
— Lusa/AO Online
Segundo disse à Lusa Bruno Maia,
um dos organizadores, a queixa partiu de várias associações que
trabalham no terreno e que consideram a operação policial que a PSP
desenvolveu na Rua do Benformoso desproporcionada e lesiva de princípios
fundamentais do Estado de Direito.No
texto da queixa, noticiada pelo Diário de Notícias e a que Lusa
teve acesso, os promotores lembram que a operação incluiu a revista de
dezenas de cidadãos encostados à parede, “perfilados e de mãos
levantadas, sem qualquer indicação de suspeita de prática de crimes”.“Tal
atuação configura, a nosso ver, uma utilização de meios
desproporcionais em relação aos fins anunciados: a forma como a operação
foi conduzida fere o princípio da proporcionalidade previsto no artigo
18.º da Constituição da República Portuguesa e também os direitos
fundamentais à dignidade da pessoa humana e à presunção de inocência”,
consideram.A queixa, que deverá ser
entregue a 06 de janeiro à provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral,
refere ainda que encostar cidadãos à parede “de forma ostensiva, sem
indicação de suspeitas concretas de envolvimento em crimes, e adotando
procedimentos invasivos” configura uma “atuação desnecessária e
humilhante” por parte das autoridades. “A
justificar-se uma intervenção na zona, esta nunca pode implicar uma
atuação simbólica e individualmente vexante, quando a PSP tem ao seu
dispor outros meios de atuação proporcionais e adequados”, indica o
texto.Personalidades como a deputada Joana
Mortágua (BE), a deputada e ex-ministra do Trabalho, Solidariedade e
Segurança Social Ana Mendes Godinho (PS), o encenador Tiago Rodrigues, o
deputado e sociólogo historiador José Soeiro (BE), a promotora musical
Maria Escaja e a líder parlamentar do Livre, Isabel Mendes Lopes, entre
outras, já subscreveram a queixa.Em
declarações à Lusa, Bruno Maia explicou tratar-se de um texto “muito
plural”, não sendo nada contra a polícia, mas sim a favor de um futuro
melhor.Os
promotores da queixa consideram ainda preocupante que este tipo de
operações ocorra “numa área da cidade predominantemente frequentada por
comunidades imigrantes, levantando dúvidas sérias sobre a equidade no
tratamento de cidadãos em função do local onde habitam ou transitam”.“Estas
ações dificilmente teriam lugar em outras áreas da cidade, facto que
aprofunda a perceção de desigualdade no tratamento de diferentes
comunidades. Tais ações contrariam os valores da democracia e os valores
republicanos e criam um ambiente de desconfiança entre a população e as
forças de segurança”, refere o texto.O
documento está a circular através das redes sociais, assim como a
convocatória para uma manifestação agendada para dia 11 de janeiro, que
descerá a Avenida Almirante Reis, em direção ao Martim Moniz, em Lisboa.Os
promotores da queixa pedem à provedora de Justiça para averiguar e
apurar a legitimidade e proporcionalidade da atuação policial de dia 19
de dezembro, considerando que esta situação “exige uma reflexão profunda
e a adoção de medidas” para garantir que, no futuro, “sejam evitadas
práticas desproporcionais e lesivas de direitos fundamentais como esta”.A
Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) decidiu abrir um
processo administrativo “de natureza não disciplinar” sobre a operação
da PSP no Martim Moniz, que decorreu na tarde de dia 19 de dezembro,
quando um forte dispositivo policial cercou a Rua do Benformoso, onde há
uma grande comunidade de cidadãos do subcontinente indiano, e revistou
dezenas de pessoas, que ficaram entre uma a duas horas viradas para a
parede. Dois homens, ambos de
nacionalidade portuguesa, foram detidos, um por posse de arma proibida e
droga e outro por suspeita de pelo menos oito crimes de roubo.A
ação da PSP tem sido criticada por associações de imigrantes, grupos
antirracismo e várias forças políticas, que acusam a polícia de estar ao
serviço da propaganda do Governo contra os cidadãos estrangeiros
irregulares. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também considerou que as ações da polícia devem ser feitas com recato.