Detetada presença humana nos Açores 700 anos antes da chegada dos portugueses
6 de out. de 2021, 11:21
— Lusa/AO Online
Em
comunicado, o CIBIO-Açores esclarece que o estudo reconstruiu as
condições em que os Açores foram habitados pela primeira vez e o impacto
que a presença humana teve nos ecossistemas do arquipélago.Uma
das principais conclusões da investigação, publicada na revista PNAS, é
que as primeiras evidências de presença humana nas ilhas foram
detetadas 700 antes da chegada dos portugueses no século XV,
nomeadamente à ilha de Santa Maria em 1427 e às ilhas do Corvo e das
Flores em 1452.O
estudo sugere ainda, tendo por base diferentes simulações para
determinar as condições climatéricas, que os primeiros colonizadores do
arquipélago eram “provavelmente” oriundos do norte da Europa e que
encontraram “condições climáticas favoráveis para navegar em direção aos
Açores no final da Alta Idade Média, devido à predominância dos ventos
de nordeste e o enfraquecimento dos de oeste”.“O
trabalho agora publicado regista a chegada dos primeiros colonos às
ilhas no final da Alta Idade Média”, salienta o CIBIO – Açores,
acrescentando que a investigação contraria o consenso de que o
arquipélago nunca tinha sido habitado até à chegada dos portugueses.Citado
no comunicado, Pedro Raposeiro, investigador do centro açoriano e
primeiro autor do artigo, sublinha que a investigação “demonstra a
importância de promover estudos multidisciplinares entre as ciências
naturais e as ciências humanas” para que exista “uma visão mais ampla do
que realmente aconteceu no passado”.Os
investigadores analisaram e dataram, recorrendo a técnicas geológicas,
químicas, físicas e biológicas, cinco sondagens de sedimentos
recuperados do fundo de lagos das ilhas de São Miguel, Pico, Terceira,
Flores e Corvo.“Detetaram
nos sedimentos lacustres a presença de esteróis, fração muito abundante
da matéria orgânica nas fezes de mamíferos, e de fundos coprófilos, que
são interpretados como indicadores da atividade humana”, esclarece o
centro.Também
citado no comunicado, Timothy Shanahang, investigador da Universidade
do Texas (Estados Unidos da América), esclarece que os intestinos dos
mamíferos produzem “em abundância esteróis e estanóis fecais que são bem
preservados nos sedimentos lacustres e são um indicador único e
inequívoco da presença de grandes mamíferos em determinados períodos do
passado”.“Além disso, os compostos produzidos pelo intestino humano e pelo gado são diferentes, o que nos permite distingui-los”, afirma.Já
Santiago Giralt, um dos principais autores do artigo, acrescenta que,
devido à posição geográfica, as ilhas dos Açores “não eram habitadas por
grandes mamíferos” e que o aparecimento do “coprostanol nos sedimentos
pode ser atribuído à presença de humanos e do estigmastanol aos
ruminantes, como vacas, cabras ou ovelhas”.A
partir do estudo do pólen, fragmentos fósseis de plantas e resíduos de
carvão presentes nos sedimentos, a investigação caracterizou ainda o
impacto das primeiras ocupações humanas nos ecossistemas das ilhas, que
levou a “profundas alterações ecológicas e ambientais”.“Embora
as fontes históricas descrevam os Açores como densamente florestados e
intocados, este trabalho evidencia a discrepância que existe entre os
registos fósseis e os registos históricos que servem na maioria das
vezes como referência para identificar ecossistemas prístinos”, afirma
Pedro Raposeiro.Além
dos investigadores do centro da Universidade dos Açores, o estudo
contou em Portugal com a colaboração do Instituto Português do Mar e da
Atmosfera (IPMA), do Instituto Dom Luiz, da Universidade de Lisboa, e da
Universidade de Évora.Na
investigação participaram também especialistas do Geosciences Barcelona
(GEO3BCN-CSIC), do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade
Autónoma de Barcelona, do Centro de Pesquisas Ecológicas e Aplicações
Florestais (CREAF), do Instituto de Pesquisas Marinhas (IIM-CSIC), do
Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN-CSIC), da Universidade da
Corunha (UC), da Universidade de Barcelona (UB), da Universidade do
Texas, da Universidade de Brown dos Estados Unidos da América, da NIOZ
(Holanda), da Universidade de Amsterdam (Holanda), da Universidade de
Bern (Suíça) e da Universidade Edith Cowan (Austrália).