Desvalorização dos sintomas leva a diagnóstico tardio da endometriose
17 de mar. de 2023, 12:28
— Lusa
Os
dados resultam de um inquérito feito no ano passado pela Sociedade
Portuguesa de Ginecologia, que aponta para a existência no país de cerca
de 350 mil mulheres com a patologia, uma em cada 10 em idade fértil, a
maioria entre os 30 e os 35 anos.Em
declarações à Lusa no mês da endometriose, a especialista em
endometriose Filipa Osório, que é também membro da direção da Secção de
Endoscopia da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, sublinhou que a
origem da doença inflamatória não é totalmente conhecida e não tem cura.Mas
acentuou a importância de um diagnóstico atempado, que permita perceber
qual o tratamento adequado a cada caso, que mantenha a doença
“controlada, estável”, para devolver à mulher qualidade de vida.A
dor incapacitante é a principal manifestação dos sintomas, mas também
pode ser o aparecimento de massas pélvicas ou a dificuldade em
engravidar.“A mulher com uma dor menstrual
que a incapacite de fazer as suas atividades diárias deve procurar
ajuda especializada, para tentar excluir ou diagnosticar” a
endometriose, alertou, à Lusa, a ginecologista-obstetra.Segundo
Filipa Osório, “é normal ter uma dor tolerável e que passa com um
paracetamol, mas uma dor que é incapacitante tem de ser investigada,
para se perceber o que deve ser feito para devolver à paciente qualidade
de vida”.Susana Fonseca, presidente da
MulherEndo – Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose,
lamentou o desconhecimento e os “muitos mitos associados enraizados na
sociedade, que levam à desvalorização dos sintomas” pela própria mulher e
também por profissionais de saúde.A responsável sublinhou existir a ideia de que “ter dor menstrual ou dor associada às relações sexuais é normal”.“Esses
mitos vão-se perpetuando, levam a que a mulher não procure logo ajuda e
a um diagnóstico tardio”, mas existe uma diferença entre um desconforto
e uma dor que impede de fazer a vida normalmente, alertou.A
presidente da MulherEndo contou que já fez quatro cirurgias, por os
sistemas urinário e gastrointestinal terem ficado comprometidos, uma vez
que foram precisos “muitos anos e muitos médicos” até ter um
diagnóstico e o problema escalou.No
entanto, frisou, o tratamento deve ser multidisciplinar, “adequado a
cada situação” e à agressividade da doença em cada mulher.Embora
não haja forma de prevenir a doença inflamatória que resulta da
implantação do endométrio fora da cavidade uterina, provocando “quistos,
nódulos, aderências”, é possível controlá-la, por exemplo através da
conjugação de hábitos de vida saudáveis com a terapêutica, normalmente
um tratamento hormonal, não indicado para todas as doentes.A
adoção de uma alimentação com restrições nos produtos lácteos, carnes
vermelhas, glúten, açúcares processados ou café e álcool evitam uma dor
tão intensa.O exercício físico também
funciona como anti-inflamatório, explicou Filipa Osório, segundo a qual
se tenta, sempre que possível, evitar a cirurgia, embora qualquer
tratamento possa ser reversível e a dor voltar.A
médica enfatizou a importância de um diagnóstico precoce em mulheres
que querem engravidar, para se tentar “preservar ao máximo a reserva dos
ovários” e “assegurar a possibilidade de uma gravidez futura”.Filipa
Osório acentuou que metade das mulheres com infertilidade têm
endometriose e, dessas, uma em cada três precisa de ajuda para
engravidar.Para sensibilizar a sociedade
para a necessidade de procurar ajuda atempada e desmistificar a
normalidade com que se encara a dor menstrual ou sexual, assim como
alertar para o impacto que a endometriose pode ter na vida das mulheres e
reduzir o desconhecimento, realiza-se em 25 de março a EndoMarcha, com
início às 14:00 junto ao Pavilhão de Portugal, no Parque nas Nações.Em
17 de fevereiro, o parlamento discutiu uma petição da MulherEndo para a
criação de uma estratégia nacional de combate à doença, que reuniu mais
de oito mil assinaturas e que motivou projetos de lei e projetos de
resolução de todos os partidos com representação parlamentar.No
entanto, o PS chumbou todos os projetos de lei e projetos de resolução
que previam mais direitos laborais e assistenciais a estas pacientes.De
acordo com o guião de votações, os socialistas apenas aprovaram o seu
projeto de resolução, para uma estratégia nacional de combate a estas
doenças, e uma do PAN, para um dia nacional de sensibilização.