Desinformação sobre alterações climáticas leva população a duvidar da ciência
27 de jul. de 2022, 11:59
— Lusa/AO Online
A
académica da Universidade de Harvard Naomi Oreskes, que escreveu sobre a
história da desinformação sobre as alterações climáticas, considerou
“uma tragédia” perceber que “milhões de americanos pensam que os
cientistas estão a mentir, mesmo sobre coisas que estão provadas há
décadas”."Eles têm sido persuadidos por décadas de desinformação. A negação é realmente, realmente profunda", sublinhou Oreskes.Um
dos exemplos foi o memorando tornado público pelo The New York Times,
em 1998, em que era revelada a estratégia agressiva das empresas
americanas de combustíveis fósseis para reagir à assinatura do Protocolo
de Quioto, no qual as nações se comprometeram a reduzir as emissões de
carbono, apostando na desinformação para gerar a dúvida no debate
público.As empresas de combustíveis fósseis gastaram muito num esforço para contrariar o apoio à redução de emissões.Agora,
mesmo quando essas mesmas empresas promovem investimentos em energias
renováveis, o legado de toda essa desinformação climática permanece e
contribui para um maior ceticismo em relação aos cientistas e
instituições científicas."Foi a abertura
de uma caixa de Pandora de desinformação que se revelou difícil de
controlar", disse Dave Anderson, do Energy and Policy Institute, uma
organização que criticou as empresas petrolíferas e carboníferas por
reterem a informação a que tinham acesso sobre os riscos das alterações
climáticas.Nas décadas de 80 e 90, quando
passou a existir uma maior sensibilização para as alterações climáticas,
as empresas de combustíveis fósseis investiram milhões de dólares em
campanhas de relações públicas para rebater as provas que sustentavam as
mudanças em curso no planeta.Uma das
estratégias passou por financiar grupos de reflexão supostamente
independentes que escolheram a dedo dados científicos e promoveram
opiniões divergentes destinadas a fazer parecer que existiam dois lados
legítimos na discussão.Desde então, a
abordagem abrandou à medida que o impacto das alterações climáticas se
tornou mais evidente e as empresas de combustíveis fósseis passaram a
divulgar energias renováveis, como a solar e a eólica, ou iniciativas
concebidas para melhorar a eficiência energética ou compensar as
emissões de carbono.O investigador da
Universidade de Stanford Ben Fanta, também advogado, frisou que “o
debate [sobre as alterações climáticas] foi fabricado pela indústria dos
combustíveis fósseis nos anos 90, e estamos a viver com essa história
neste momento”."Vivemos dentro de uma
extensa campanha de várias décadas executada pela indústria dos
combustíveis fósseis", acrescentou Franta.O
impacto dessa estratégia reflete-se em inquéritos à opinião pública,
que mostram um fosso crescente entre republicanos e outros americanos
quando se trata de opiniões sobre as alterações climáticas.Embora
a percentagem de americanos em geral que dizem estar preocupados com as
alterações climáticas tenha aumentado, os republicanos estão cada vez
mais resistentes em aceitar o consenso científico de que a poluição
proveniente dos seres humanos está a impulsionar as alterações
climáticas.As empresas de combustíveis
fósseis negam qualquer intenção de enganar o público americano e apontam
os investimentos em energias renováveis como prova de que levam a sério
as alterações climáticas.Numa declaração
enviada por correio eletrónico à The Associated Press, a porta-voz do
Instituto Americano do Petróleo, Christina Noel, afirmou que a indústria
petrolífera está a trabalhar para reduzir as emissões, assegurando ao
mesmo tempo o acesso a energia fiável e acessível.