Desempenho de alunos portugueses a Matemática “é catastrófico"
4 de dez. de 2024, 17:06
— Lusa/AO Online
Mais
de cinco mil alunos de escolas portuguesas realizaram, no ano passado, a
bateria de testes do Trends in International Mathematics and Science
Study (TIMSS), obtendo 475 pontos em 1.000 nas provas de Matemática, o
que representa uma descida de 25 pontos em relação aos resultados
obtidos nos testes anteriores, realizados em 2019.“O
[resultado no] 8.º ano é catastrófico. Se fizermos uma média
internacional há uma descida de apenas oito pontos, enquanto nós
descemos 25 pontos. Numa escala de zero a mil pode parecer pouco, mas é
uma descida muito violenta”, alertou Filipe Oliveira, professor
associado do ISEG - Universidade de Lisboa, durante a apresentação dos
resultados do TIMMS 2023, que decorreu hoje no Teatro Thalia, em Lisboa.O
matemático analisou a evolução dos restantes países à procura de
“descidas piores no mundo” e só encontrou “o Cazaquistão, a Malásia, o
Bahrein, Israel e os EUA”, já que “no espaço europeu não há nada que se
compare com os resultados” portugueses.Comparando
apenas os resultados obtidos no ano passado pelos alunos dos 44 países e
três economias que realizaram as provas de 8.º ano do TIMMS 2023,
Portugal surge em 26.º lugar a Matemática e 17.º a Ciências, numa tabela
que volta a ser liderada por Singapura, com 605 pontos a Matemática e
606 pontos a Ciências.Em Portugal, apenas
4% dos alunos do 8.º ano tiveram um desempenho de excelência a
Matemática, por oposição a 19% dos estudantes que não conseguiram
atingir os objetivos mínimos na bateria de testes. O
TIMMS avaliou também os conhecimentos dos alunos do 4.º ano, onde o
problema não é tão grave: Quase um em cada dez alunos do 4.º ano (9%)
não conseguiu atingir os conhecimentos mínimos a matemática.No
entanto, também entre os alunos do 4.º ano se registou um agravamento
dos resultados quando comparados com as notas obtidas nas provas
realizadas em 2019.Para o professor
associado do ISEG, é preciso olhar “para o que se passou desde 2015”,
quando se inverteu a tendência gradual de melhoria dos resultados dos
alunos portugueses a praticamente todas as provas internacionais.“O
que explica este pico é uma longa história, que começa nos anos 90,
quando não fazíamos ideia de como nos comparar com o resto do mundo”,
defendeu Filipe Oliveira.Nessa altura,
recordou, o Governo português decidiu começar a participar em provas
internacionais, mas perante os maus resultados dos seus alunos decidiu
que “a estratégia a adotar era deixar de participar”. Na
mudança de século, começou a haver “um grande esforço dos governos,
quer socialistas quer da direita” em participar nas provas
internacionais que permitissem fazer comparações com os outros países,
mas também começaram a realizar provas de aferição para avaliar o
conhecimento dos portugueses no final dos ciclos. “Em
2015, acabaram as provas em final de ciclo, em circunstâncias bastante
inéditas”, lamentou o matemático, referindo-se à substituição por provas
de aferição a meio dos ciclos. A esta
mudança, Filipe Oliveira apontou ainda um “caos curricular”, em que “as
metas não se coadunavam com as aprendizagens”, e o fim da certificação
dos manuais em 2015, quando “os manuais escolares deixaram de ser
revistos”.“A descida de 25 pontos na
Matemática do 8.º ano deve-nos preocupar e devemos tirar algumas
implicações”, afirmou por seu turno o ministro da Educação, Fernando
Alexandre, que participou na apresentação dos resultados do estudo
internacional de forma remota, por se encontrar num evento na
Universidade de Aveiro. Fernando Alexandre
mostrou-se também preocupado com o impacto do contexto socioeconómico
no sucesso académico dos alunos, reconhecendo que “a igualdade de
oportunidades é uma utopia que nunca será alcançada”.