Desde a Segunda Guerra Mundial que não havia tantos conflitos armados entre Estados

Hoje 18:56 — Lusa

O relatório, intitulado "Tendências de Conflitos: Uma Análise Global, 1946-2025", indica ainda que o ano passado foi o terceiro mais letal desde 1989, com 245 mil mortes resultantes da violência relacionada com conflitos.O documento registou oito conflitos interestatais em 2025: a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, o conflito entre a Índia e o Paquistão, os combates entre o Afeganistão e o Paquistão, os confrontos entre a Tailândia e o Camboja e múltiplos conflitos interestatais ligados ao conflito no Médio Oriente, incluindo os que envolveram Israel, o Irão, o Iémen e os Estados Unidos."O ressurgimento de conflitos interestatais a esta escala é profundamente preocupante", salientou Siri Aas Rustad, diretora de investigação do PRIO e principal autora do relatório, que salientou que "durante décadas, as guerras civis dominaram os conflitos globais".Durante o lançamento do relatório, que se baseia em dados do Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala (UCDP), afirmou: "Estamos agora a assistir a um perigoso ressurgimento de confrontos diretos entre Estados, impulsionados por rivalidades geopolíticas, disputas fronteiriças e escalada regional, particularmente no Médio Oriente".Estes números refletem as 245 mil mortes em incidentes relacionados com batalhas, um número resultante de três conflitos: a invasão russa da Ucrânia, a guerra no Sudão — incluindo os massacres perpetrados pelo grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) em El Fasher, no Darfur — e o bombardeamento israelita da Faixa de Gaza.O PRIO observa que o elevado número de mortes é frequentemente impulsionado por alguns conflitos de grande escala e sublinha que, embora antes de 2020 fosse comum a ocorrência de um destes conflitos de cada vez, nos últimos anos tem-se verificado uma acumulação destes conflitos em simultâneo.O aumento do número de mortes entre 2024 e 2025 — passando de 188.000 para 245.000 — deve-se principalmente à violência no Sudão, com cerca de 60.000 mortos na última semana de outubro de 2025 pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) em El Fasher, segundo dados da UCDP.O número de mortes quase duplicou na República Democrática do Congo (RDCongo), principalmente devido à ofensiva lançada no início do ano pelo grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23).A UCDP esclarece que o número de mortos inclui aqueles que morreram em combate — o que engloba mortes em conflitos ou ataques, tanto de combatentes como de civis — mas exclui um "número enorme" de mortes indiretas devido à falta de infraestruturas e instalações de saúde, insegurança alimentar e aqueles feridos em ataques que posteriormente sucumbiram aos ferimentos.Por isso, sublinha que, embora os números reflitam o nível de conflito em todo o mundo, são estimativas conservadoras, especialmente porque o número de mortes indiretas é difícil de verificar "devido à falta de dados fiáveis" que permitam uma estimativa aproximada.O relatório indica que 2025 registou também o maior número de conflitos estatais desde 1946, com 65 conflitos — mais seis do que o recorde anterior — e cerca de 153 mil mortes, um número apenas superado pelos documentados em 2021, 2022 e 2024.Dados que representam um nível persistentemente elevado de violência estatal, com mais mortes nos últimos cinco anos do que nos 20 anos anteriores a 2021.Durante 2025, estes 65 conflitos foram documentados em 35 países, um aumento em ambas as áreas em comparação com 2024.Além disso, na última década, a diferença entre o número de conflitos e o número de países em conflito aumentou, indicando um aumento no número de países que experienciam múltiplos conflitos simultâneos — como Myanmar, com cinco, e Israel, com dois conflitos civis e três internacionais.A lista de países com múltiplos conflitos inclui ainda o Afeganistão, os Camarões, o Mali, a Nigéria e o Paquistão, com três cada, enquanto 16 dos 35 países têm apenas um conflito.Este facto "reflete também uma crescente complexidade na dinâmica dos conflitos, com mais atores envolvidos", como explica o PRIO, que sublinha que este tem "implicações importantes para a forma como estes conflitos são analisados ​​e abordados".Rusted salientou que "os conflitos hoje estão cada vez mais interligados" e acrescentou que "envolvem mais atores, frentes sobrepostas e maior abrangência regional"."Isto torna-os muito mais difíceis de resolver e aumenta significativamente o risco", disse.