Desafio do regulamento de IA é manter-se atual e acompanhar a evolução tecnológica
21 de jul. de 2024, 15:29
— Alexandra Luís, Lusa
O
regulamento europeu, que foi publicado no Jornal Oficial da União
Europeia (UE) em 12 de julho, entra em vigor 20 dias após a publicação,
sendo que tem de estar implementado até agosto de 2026.Este
diploma "tenta ser neutro na definição de IA, para que não fique
ultrapassado no tempo e foca-se essencialmente na utilização que é feita
da IA e não nas ferramentas em si mesmas", refere a associada de TMC -
Tecnologia, Media e Comunicações da CMS Portugal."Não
obstante, sendo esta uma área em constante evolução e que na maioria
das vezes anda a uma velocidade bastante mais rápida que aquela que o
legislador consegue alcançar, o maior desafio será que o regulamento se
mantenha atual e que consiga acompanhar os desenvolvimentos
tecnológicos", salienta Sara Rocha. Sobre o
impacto direto na vidas pessoas, a jurista recorda que atualmente a
maioria das empresas "já recorre a sistemas de IA para inferir
características comportamentais dos seus clientes, sendo estes
monitorizados de forma substancial pelas empresas, apesar do Regulamento
Geral de Proteção de Dados Pessoais [RGPD)". Agora,
o que o regulamento de IA "vem proibir são utilizações como, por
exemplo, de categorização social por características identitárias,
raciais, como o social 'scoring' que é muito associado à China".Neste
sentido, com o regulamento "as pessoas passarão a ter um nível superior
de proteção com a proibição concreta de algumas destas utilizações".Além
disso, mesmo nas práticas que são permitidas, "as empresas passarão a
ter de garantir salvaguardas adicionais, de forma a garantir que não
existe viés, que existe intervenção humana" e "que são respeitados os
direitos humanos".O diploma pretende "é
que quando a IA é utilizada com impacto na vida dos cidadãos são tomadas
medidas adequadas e cuidados adicionais". E
exemplifica: "Se não nos faz muita confusão que, na sequência de uma
compra, um 'website' nos recomende produtos semelhantes ao adquirido com
recurso à IA, já nos fará alguma confusão que a medida de uma pena seja
determinada, em exclusivo com base em IA, ou que um banco nos negue um
crédito com base em IA".Neste caso,
"provavelmente quereremos saber o que fundamenta essa decisão e será
relevante garantir que não existiu viés e, em última análise, que
existiu intervenção humana", aponta.Em
suma, o que o regulamento pretende, "em primeiro lugar, é que o
algoritmo seja explicável a quem é afetado e que este cumpra com as
normas aplicáveis", reforça Sara Rocha.
Relativamente ao impacto nas empresas, este "será enorme por ser um
regulamento transversal e que vai desde 'big tech' a PME e cobre vários
setores de atividade e vários agentes". Do
marketing, aos recursos humanos, passando pelo setor jurídico ou
financeiro, o novo regulamento terá impacto nas mais diversas áreas, mas
"também será aplicável a infraestruturas críticas, como a energia, ou
ao setor público, à educação, energia" e até a banca."O
que as empresas terão de fazer é analisar a sua utilização de
ferramentas de IA, mapear as utilizações existentes e definir objetivos
concretos para a utilização da tecnologia, identificar lacunas e
implementar as normas existentes no uso que fazem destas ferramentas, de
forma a garantir o cumprimento da legislação aplicável", salienta.Quanto às 'big tech' (grandes tecnológicas), estas vão ter de aplicar a lei."O
risco que existe é que a tecnologia, uma vez mais, avance mais rápido
do que o próprio regulamento e se encontrem formas tecnológicas de
contornar estas proibições", mas o "objetivo é abranger todas as
empresas e todos os sectores, desde que recorram a IA", remata.