Deputados dos Açores divididos sobre perda de direitos, liberdades e garantias de cidadãos
4 de jan. de 2023, 10:05
— Lusa/AO Online
O
assunto esteve em discussão numa reunião da Comissão Eventual de
Aprofundamento da Autonomia, em Ponta Delgada, que tem como principal
objetivo aumentar as competências dos órgãos de governo próprio da
região em diferentes matérias.“O
representante da República, que é um vigário do Presidente da República,
não tem nenhumas competências administrativas, a não ser no seu próprio
gabinete e do seu pessoal”, lembrou o deputado socialista Francisco
Coelho, antigo presidente do parlamento açoriano que agora preside à
Comissão de Aprofundamento da Autonomia.Na
sua opinião, “não se percebe” que o representante da República mantenha
competências que não consegue exercer. No seu entender, estas “devem
ser transferidas para os órgãos de governo próprio da região" numa
futura revisão constitucional.Francisco
Coelho apresentou algumas propostas da bancada socialista que visam
clarificar as competências do Governo Regional nesta matéria, mas as
alterações propostas estão longe de serem consensuais, originando
críticas dos restantes partidos.“Há um
poder regulamentar excecional que concede, sobre proposta da autoridade
de saúde regional, a aprovação pelo Governo de medidas que podem levar à
privação da liberdade e à separação de pessoas e essas matérias
levantam-nos muitas dúvidas sobre a sua constitucionalidade”, advertiu
António Lima, do Bloco de Esquerda.Também o
líder parlamentar do PSD, João Bruto da Costa, dúvida que a região
possa, pela via administrativa, colocar em causa direitos, liberdades e
garantias dos cidadãos, que possam mesmo vir a colidir com a posição dos
próprios tribunais.“Estamos numa
fronteira. Temos de fazer essa avaliação com muito critério e muito
rigor e não deixar abertas portas a um eventual poder discricionário”,
alertou o deputado social-democrata, adiantando que, nestas situações,
“os tribunais podem vir a declarar contrários alguns atos da
administração, relativamente ao respeito pela liberdade individual”.A
Comissão de Aprofundamento da Autonomia, criada por iniciativa aprovada
na Assembleia Legislativa dos Açores em fevereiro de 2021, tem entre
mãos outras propostas consideradas polémicas, como é o caso da extinção
do cargo de representante da República, a eliminação do veto político
sobre diplomas regionais, a redução do número de deputados à Assembleia
Regional, a criação de partidos açorianos e a possibilidade de os
cidadãos concorrerem livremente a eleições, sem o suporte de nenhum
partido político.A Comissão, que integra
representantes dos oito partidos com assento parlamentar (PS, PSD, CDS,
PPM, BE, IL, CH e PAN), pretende concluir os seus trabalhos até ao final
de março de 2023 e apresentar depois um relatório final no parlamento
regional.