“Depois de 15 anos, há um sentimento de missão cumprida”

Hoje 10:14 — Lucas Rebelo

A Anda&Fala e o Walk&Talk foram fundados em 2011. Que balanço faz destes 15 anos?Acima de tudo, há muita responsabilidade naquilo que se construiu. Há um reconhecimento dos nossos pares que extravasa a Região. E isso para nós foi sempre uma coisa importante desde o início. Este projeto faz parte da ilha, do arquipélago e do Atlântico. Contudo, queríamos que fosse algo que tivesse relação com o mundo.Ao longo do tempo, esta nossa mentalidade foi questionada e até mesmo criticada, mas sempre nos mantivemos fieis à nossa estratégia.De que forma o contexto cultural açoriano se foi alterando ao longo destes anos?Nestes últimos 15 anos existiram várias alterações na área da cultura nos Açores, havendo, nomeadamente, um processo de profissionalização muito grande em várias estruturas. E de muitas formas acabamos por liderar esse processo. Isto porque tivemos discussões com o Ministério da Cultura com o objetivo de alterar a questão do acesso aos apoios nacionais.Antes, nós não podíamos concorrer a esses apoios, e graças a conversas realizadas entre Ministério e Secretaria Regional, mediadas por mim, a situação foi revertida. Deste modo, as estruturas açorianas e madeirenses passaram a poder concorrer a estes financiamentos. Conseguimos corrigir algo que acabava por ser discriminatório e fico feliz em sentir que a Anda&Fala contribuiu para essa transformação de forma inequívoca.De que forma o turismo pode alavancar o desenvolvimento da cultura nos Açores?A liberalização do espaço aéreo em 2015 foi uma grande mudança, tornando possível todos estes fluxos a que temos assistido. Não só para quem nos visita, como também para nós que estamos cá e podemos sair para ter novas experiências.Com o movimento das pessoas, acaba por existir também movimento de ideias, de culturas, de propostas e de ambições. E nós temos a oportunidade de ser o local onde toda esta diversidade converge. E a Associação Anda&Fala tem trabalhado muito por essa interseccionalidade, tentando perceber a melhor forma de se relacionar com o turismo.O que motivou a criação da vaga?A vaga surge essencialmente da nossa ambição. Quando se dá o início da pandemia, em 2020, nós já tínhamos recebido os apoios destinados à organização do Walk&Talk, sendo que o evento já não se iria realizar pelas razões que já todos sabemos. Sendo assim, decidimos falar com o Governo Regional e com o Ministério da Cultura, explicando que tínhamos um espaço que, com a canalização dos fundos que já tínhamos à nossa disposição, se poderia tornar na nova instituição cultural da Região.E qual é o foco deste espaço?No fundo, queríamos criar uma instituição contemporânea, nova e fresca. Quando as pessoas chegam lá, percebem que há um portão aberto para a rua, havendo assim uma relação muito imediata com os visitantes. E ainda, para além da galeria, há também, no mesmo nível, uma oficina de trabalho e uma casa. Isto ajuda a fazer com que o público pense que as instituições culturais não têm que ser algo pesado. Muito pelo contrário, a Vaga é um espaço muito leve e, acima de tudo, é um local de ensaio e de aprendizagem.Que planos existem para o futuro?Apercebemo-nos que nunca tinha sido realizada uma grande exposição de artistas açorianos em Lisboa. Deste modo, falamos com as galerias municipais da capital com o objetivo de realizar uma iniciativa deste tipo.Felizmente eles aceitaram. Então, em março do próximo ano, vai decorrer a exposição Welcome to My Island, com o objetivo de apresentar e valorizar os artistas açorianos.Eu, pessoalmente, estou muito entusiasmado porque vou estar a fazer a curadoria dessa exposição. Vamos levar artistas nascidos entre 1987 e 2007, sendo que vão participar nomes como Sofia Caetano ou as Atelineiras. Portanto, pela primeira vez, vamos ter uma grande mostra de artistas açorianos na capital do país, o que é incrível. Conseguimos reunir financiamento de diversas instituições e espero que sirva de trampolim para vários deles.