Denunciante de abusos sexuais na Igreja acusa comissão de instrução de se ter recusado a ouvi-la
29 de mai. de 2025, 09:20
— Lusa/AO Online
Residente nos Estados
Unidos da América desde os 18 anos, a mulher, hoje com 62 anos, alega
ter sido vítima de abusos sexuais, quando tinha 10 anos, por parte de um
padre na ilha do Pico, nos Açores.Deslocou-se
na terça-feira à ilha Terceira para ser ouvida por membros da comissão
de instrução, mas a reunião acabou por não acontecer.Numa
carta enviada à presidente da Equipa de Coordenação Nacional das
Comissões Diocesanas para a Proteção de Menores, a que a Lusa teve
acesso, a mulher disse sentir-se “defraudada” por não ter tido
oportunidade de ser ouvida.“Eu vim da
Carolina do Norte, via Boston, 15 horas de carro, para a Terceira para
ser ouvida? Ou vim para a Terceira para ser humilhada? Desrespeitada?
Desvalidada? Depois de tudo o que aconteceu, eu vim por minha conta e
risco, de boa-fé, ter convosco e sou tratada desta maneira? Como é que
uma comissão de apoio às vítimas pode agir desta forma?”, questionou.Segundo
a denunciante, a reunião, com uma representante do Grupo VITA e um
representante da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas
de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis, foi agendada inicialmente
para se realizar num hotel, mas na véspera a localização foi alterada
para um edifício administrativo da Diocese de Angra.“Isto
deixou-me perplexa. Como era possível a comissão agendar esta sala? Eu,
depois de tudo o que me aconteceu, teria de me sentir à vontade nesta
estrutura? Achei que era insensível e sobretudo uma falta de respeito
pela minha pessoa”, apontou.A mulher
contou que um primo, seu representante em Portugal, dirigiu-se ao local
da reunião para informar que ela não conseguiria reunir-se naquele
edifício.Disse ter recebido um email da
responsável do grupo VITA, que “sem qualquer empatia, sensibilidade, ou
até mesmo qualquer sentido de humanidade, respondeu que o local tinha
sido alterado, porque o local inicial não reunia condições de
privacidade ou acústicas”, acrescentando que o hotel também era da
Igreja.Segundo a denunciante, os
representantes da comissão deslocaram-se para o hotel, mas não lhe foi
“dito de maneira clara” que o local tinha sido novamente alterado.Quando
se apercebeu, disse ter enviado uma mensagem a mostrar disponibilidade
para se reunir durante a tarde de terça-feira e hoje, mas foi-lhe
respondido, por email, que não tinha cumprido os procedimentos e que
“este processo de avaliação estaria encerrado”.Num
comunicado, enviado em resposta a questões colocadas pela agência Lusa,
o grupo VITA e a Comissão Diocesana de Angra rejeitaram as acusações.“A comissão de instrução mostrou-se inteiramente disponível e refuta veementemente as acusações que lhe são feitas”, afirmaram.Os
membros da comissão alegaram que “tudo foi feito para que este processo
decorresse da forma prevista”, salientando que um dos elementos se
deslocou de propósito à ilha Terceira para ouvir a denunciante.“O
local de audição foi alterado e, posteriormente, novamente alterado,
como forma de tentar corresponder às necessidades da pessoa em questão”,
acrescentaram.Em comunicado, revelam que,
na véspera da primeira reunião, perceberam que “sala disponível para o
efeito não dispunha das melhores condições de privacidade, do ponto de
vista acústico”, alterando a localização para “uma sala num prédio
urbano sem qualquer contexto religioso”.Segundo
a comissão, a denunciante confirmou a sua presença na véspera, mas à
hora marcada, 10:00, fez-se representar por um familiar que exigiu que
ela fosse ouvida no local inicialmente definido.Os
membros da comissão dizem que contactaram a denunciante a explicar o
motivo da mudança de sala e perguntaram como desejava proceder, mas não
obtiveram resposta.Por volta das 10:28,
relatam, deslocaram-se para o local inicialmente designado e informaram a
denunciante, que respondeu, dois minutos depois, “que iria pensar e que
responderia até ao meio-dia”.Os elementos
sublinham que informaram a mulher e o familiar de que as entrevistas
requeriam tempo e teriam de ser realizadas durante duas manhãs, não
podendo aguardar até ao meio-dia, mas sem obterem resposta informaram-na
de que “não seria possível prosseguir com este processo, atendendo ao
adiantado da hora”.Segundo o comunicado, a
denunciante sugeriu ser ouvida na presença no primo e realizar
entrevistas complementares online, mas o regulamento não o permite.“Não
está previsto o acompanhamento das pessoas denunciantes por parte de
terceiras pessoas, exceto em situações de vulnerabilidade (em razão da
idade, doença ou deficiência). Da mesma forma, não está prevista a
realização de entrevistas à distância”, explicaram.A Lusa questionou a comissão sobre se seriam agendadas novas reuniões, mas não obteve resposta.