Democratas dos EUA preocupados com falta de popularidade de Biden
24 de dez. de 2021, 15:30
— Lusa/AO Online
As
eleições intercalares nos Estados Unidos - marcadas para 08 de novembro
de 2022 e em que vão ser escolhidos todos os 435 lugares na Câmara de
Representantes e 34 dos 100 lugares no Senado - são vistas geralmente
como avaliações à popularidade do inquilino da Casa Branca e à eficácia
da estratégia governativa.Desde agosto até
ao último mês de 2021, Biden viu a sua taxa de aprovação descer de 50%
para 43% e os analistas desconfiam que as ameaças que pairam sobre o
desempenho da economia dos Estados Unidos, em particular os elevados
níveis de inflação, podem prejudicar ainda mais as aspirações dos
democratas em manter as suas tímidas maiorias na Câmara de
Representantes e, sobretudo, no Senado.Agosto
foi exatamente o mês em que tudo se começou a complicar, com a chegada
ao poder dos talibãs no Afeganistão, perante uma turbulenta e apressada
saída dos soldados norte-americanos, com imagens televisivas de afegãos a
subir para aviões em movimento que caíram como “bombas de napalm” no
prestígio da Casa Branca.Joe Biden
preparou para os próximos meses um ambicioso programa de regeneração da
imagem dos EUA no exterior, que se iniciou recentemente com o lançamento
da primeira sessão da Cimeira para a Democracia – que junta mais de uma
centena de líderes de países livres – e que vai prosseguir com uma
intensa agenda de negociações para reforçar as alianças com os seus
aliados europeus e para repensar as difíceis relações com os seus mais
perigosos rivais: a Rússia e a China.Perante
a Rússia, a Casa Branca parece determinada em travar a escalada de
tensão montada junto às fronteiras da Ucrânia e em obrigar o Presidente
Vladimir Putin a abandonar o que Biden chama de “chantagens políticas”
com a crise energética, além de tentar convencê-lo a voltar a tratados
de controlo de armamento convencional e nuclear (que, entretanto,
caducaram ou foram abandonados).Mas basta
olhar para os cerca de 100.000 soldados russos instalados junto às
fronteiras da Ucrânia ou ouvir as declarações do Kremlin sobre as
“linhas vermelhas” da ação da NATO na Europa de Leste para se perceber
que a relação dos Estados Unidos com a Rússia não coincide com as fotos
de sorrisos na cimeira Biden/Putin de junho, em Genebra.Em
relação à China, a Casa Branca anunciou que no próximo ano vai procurar
o apaziguamento da guerra comercial com Pequim, que atingiu o seu pico
de tensão em 2018, e tentar a moderação em relação aos episódios de
provocação militar no Indo-Pacífico.Mas as
difíceis conferências sobre taxas comerciais, como a que ocorreu este
ano no Alasca, e o muito criticado plano de Defesa envolvendo o Reino
Unido e a Austrália para a região marítima onde a China aspira à
hegemonia, revelam que, também aqui, Biden não terá vida fácil em 2022.No
plano doméstico, no próximo ano, Biden aposta em rentabilizar o seu
volumoso, e trilionário, plano de infraestruturas, aprovado com
dificuldade no Congresso, mas que os estrategas da Casa Branca acreditam
que pode dar um novo fôlego à economia norte-americana, em particular
na promoção de muito do emprego perdido durante a crise da pandemia de
covid-19.Mas o sentimento dos
norte-americanos não coincide com o entusiasmo da bolsa de valores, que
subiu substancialmente em 2021, e os estudos de mercado revelam que a
confiança dos consumidores está em níveis muito fracos, bem como que as
pessoas continuam pouco confiantes nos planos da Casa Branca para a
recuperação económica.Esta desconfiança na
eficácia do Governo de Biden refletiu-se em 2021 em algumas eleições
estaduais, provocando inesperadas derrotas dos democratas - como
aconteceu para os lugares de governador e de procurador-geral do estado
da Virgínia – o que está a dar novo alento aos republicanos, que olham
para as eleições intercalares de 2022 como uma auspiciosa rampa de
lançamento para a recuperação da Casa Branca.Donald
Trump já começou a sua campanha de angariação de fundos para uma
tentativa de reeleição em 2024 e o próximo ano poderá ser decisivo para a
definição do futuro do Partido Republicano, onde setores relevantes não
escondem a preocupação com as ambições do empresário, considerando-o um
“ativo tóxico”, tendo em conta os vários processos judiciais em que
está envolvido.Contudo, para os próximos
meses, os republicanos preferem concentrar-se noutras preocupações,
nomeadamente na estratégia para aproveitar as debilidades da Casa Branca
no combate à criminalidade, que tem vindo a aumentar, e na ineficácia
da estratégia económica para lidar com o crescimento do emprego e a
vertiginosa inflação (que já superou os 6%).Os
estrategos de Biden dizem que o Presidente precisa, antes de mais, de
unir o país e os dois partidos à volta das suas causas, antes de iniciar
a aplicação do seu plano de reforma do setor social e económico.Mas
dentro do Partido Democrata, a ala mais progressista demonstra
impaciência com a incapacidade do Presidente em cumprir promessas
eleitorais, nomeadamente no setor social e financeiro, e nos próximos
meses deverá pressionar a Casa Branca a ser mais assertiva na aplicação
de medidas de proteção dos mais desfavorecidos e no aumento da carga
fiscal sobre as grandes empresas, para financiar as reformas que foram
bandeira de campanha.