Deco alerta para "muito preocupante" taxa de esforço financeiro de 80% das famílias
Covid-19
15 de out. de 2020, 11:21
— Lusa/AO Online
“Esta
taxa de esforço é contabilizada sem os créditos que estão a ser objeto
de moratória, pública ou privada, portanto imagine-se quando tiverem de
os pagar”, salientou a coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira
(GPF) da Deco, Natália Nunes, em declarações à agência Lusa.Numa
altura em que começam a terminar algumas das moratórias concedidas no
âmbito da pandemia de covid-19, nomeadamente as da Associação de
Instituições de Crédito Especializado (ASFAC), a responsável da Deco
alerta que, “este mês, já há famílias que vão ter mais dificuldades em
pagar as prestações” dos créditos contraídos.“As
moratórias têm sido uns balões do oxigénio para as famílias, porque
lhes permitem adiar o pagamento de prestações de crédito, mas há algumas
que terminaram em 30 setembro e já temos vários pedidos, este mês, de
pessoas que terminaram as moratórias privadas e estão com muitas
dificuldades em retomar o seu pagamento”, disse Natália Nunes.De
acordo com os dados do GPF da associação de defesa de consumidor,
considerando o período de 18 de março (véspera da declaração do estado
de emergência em Portugal) até 30 de setembro, as famílias tinham, em
média, prestações mensais de crédito de 880 euros e rendimentos líquidos
de 1.100 euros, o que corresponde a uma taxa de esforço de 80%.Estes
números representam um agravamento face a 30 de junho, em que a taxa de
esforço se situava nos 75%, em resultado de prestações médias mensais
de crédito de 750 euros e rendimentos líquidos de 1.000 euros.Para
a Deco, esta situação justifica que se pense “numa medida alternativa”,
sendo que a associação “desde o início defendeu que não fazia sentido
criar uma moratória legal apenas para o crédito hipotecário e para o
crédito à habitação”, mas antes uma moratória que “deveria incluir todos
os créditos”.“Porque, em bom rigor, as
responsabilidades dos consumidores dizem respeito ao crédito à
habitação, aos créditos pessoais e aos cartões de crédito, pelo que, se
tivesse sido contemplada uma medida global, possivelmente as famílias
não teriam os problemas que vão começar a ter a partir deste mês”,
sustentou Natália Nunes.Segundo os dados
hoje divulgados, a perda de rendimentos, o desemprego, a doença e o
divórcio/separação são as três principais causas das dificuldades
financeiras dos 1.017 processos de intervenção (através dos quais é dado
apoio na renegociação de dívidas, entre outras medidas) que deram
entrada na Deco entre 18 de março e 30 de setembro, com um peso de 29%,
25%, 19% e 11%, respetivamente.A maioria
das situações afeta trabalhadores do setor privado (43%), sendo 22% do
setor público, 19% desempregados, 9% trabalhadores por conta própria e
7% reformados.Em termos de escolaridade,
44% dos intervenientes nos processos que a Deco tem em mãos completaram o
ensino secundário, 24% possuem uma licenciatura e 23% concluíram o 3.º
ciclo, sendo que 41% são casados ou vivem em união de facto, 35% são
solteiros, 21% são divorciados/separados e 3% são viúvos.Desde
18 de março até final de setembro, a associação diz ter recebido um
total de 14.400 pedidos de aconselhamento financeiro de famílias, a
maioria dos quais (51%) com vista à reestruturação dos respetivos
créditos, acima dos 45% reportados pela Deco em 30 de junho passado.Seguiram-se
os pedidos de ajuda relativamente às medidas tomadas pelo Governo no
âmbito da pandemia (representativos de 17% do total em 30 de setembro,
abaixo dos 26% de 30 de junho), a penhoras de bens e rendimentos (13% em
setembro, contra 8% em junho), à insolvência das famílias (5% em
setembro contra 4% em junho) e à cobrança/recuperação de créditos (4% em
setembro e 5% em junho).Na origem das
dificuldades financeiras das famílias que pediram aconselhamento estão
sobretudo o desemprego e a perda de rendimentos (em 26% e 25% dos casos,
respetivamente), seguidos da precariedade laboral (12%) e da penhora de
rendimentos e divórcio/separação (8% em ambos os casos).