Declarações do gabinete do Representante da República são "um insulto"
Covid-19
31 de mar. de 2020, 09:08
— Lusa/AO Online
Numa
missiva enviada ao representante da República para a Região Autónoma
dos Açores, Pedro Catarino, o presidente do executivo açoriano manifesta
“total estupefação pelas declarações" de uma fonte do gabinete do
representante à agência Lusa sobre a alegada ausência de um pedido do
Governo Regional para limitar a entrada de passageiros por via aérea na
região, bem como da sua disponibilidade para considerar tal pedido.O
Representante da República para os Açores, Pedro Catarino, havia
manifestado disponibilidade para “considerar” uma eventual proposta
de limitação da entrada de passageiros na região, à semelhança do que
vai ocorrer na Madeira a partir das 00h00 desta terça-feira, face à
pandemia da covid-19.Em declarações à
agência Lusa, fonte do gabinete do representante da República para os
Açores referiu que, “até ao momento”, não foi feito nenhum pedido do
Governo dos Açores neste sentido, no âmbito dos contactos entre ambas as
partes.“Não posso deixar de lhe
transmitir, senhor Representante da República, com toda a lealdade, mas
também com a frontalidade que a mesma pressupõe, que considero essas
declarações absolutamente lamentáveis e um insulto ao trabalho do
Governo dos Açores a este propósito e sobre este assunto, bem como aos
sacrifícios e incómodos que, na presente situação que vivemos de
enfrentar a pandemia do covid-19, os açorianos que estão ausentes da
região e que pretendem regressar, bem como todos aqueles que nos
pretendem visitar, têm sentido", afirma Vasco Cordeiro na missiva a que a
Lusa teve acesso.O líder do Governo dos
Açores considera que se está perante um insulto “porque limitações de
entrada de passageiros nos Açores por via aérea já existem, e existem
apenas em virtude das medidas tomadas pelo Governo dos Açores”, que
suspenderam as ligações aéreas da Azores Airlines e SATA Air Açores.Outras
medidas, “incidindo sobre os passageiros à chegada, têm,
previsivelmente, desencorajado muitos a deslocarem-se para os Açores”,
acrescenta.Vasco Cordeiro recorda que, há
16 dias, o Governo dos Açores pediu que fossem suspensas as ligações
aéreas com o exterior da região, incluindo dos aeroportos nacionais,
tendo este pedido “sido recusado”.Para o
presidente do executivo açoriano, a “única medida que, nas atuais
circunstâncias, pode defender os Açores e, em especial”, o seu Serviço
Regional de Saúde, “de ter de lidar com casos que sobrecarreguem a sua
capacidade de resposta, é a suspensão total de ligações aéreas com o
exterior da região, incluindo de aeroportos nacionais, com exceção dos
voos de transporte de carga e casos de força maior, desde que
autorizados pela Autoridade Regional de Saúde”.“Se
a questão que, para o gabinete de vossa excelência, impede a medida que
se impõe há já 16 dias, é a ausência de um pedido do Governo dos Açores
feito diretamente a vossa excelência, aqui fica ele formulado, para
além dos já formulados ao senhor primeiro-ministro, por carta, e à
Assembleia da República", prossegue a carta.Vasco
Cordeiro adianta que essa solicitação decorre da “diferenciação das
regiões autónomas em matéria de circulação de pessoas e bens, e, nesse
particular, da Região Autónoma dos Açores”, tendo em conta apesar da
suspensão dos voos SATA, a TAP “continuar, contra a pretensão” do
executivo, a voar para São Miguel e Terceira e a “potenciar, em muito
elevado grau, a eventual contaminação na região a partir de um
passageiro com infeção ainda não detetada”.O
governante lembra ainda que a “quase totalidade dos casos
diagnosticados” na região “decorrerem de viagens efetuadas pelos
pacientes a zonas contaminadas no continente português, no continente
europeu e no continente americano, destinos para os quais a TAP continua
a promover ligações”.