"Decisiva" repressão do movimento de Tiananmen foi “apagada” da memória coletiva na China
3 de jun. de 2022, 16:59
— Lusa/AO Online
“Descobri
então que povo não era uma palavra vazia de significado”, repetida até à
exaustão pela propaganda do regime, lembrou, num ensaio, o escritor
chinês Yu Hua, que tem duas obras publicadas em Portugal.“Em
Pequim, andava-se de metro ou autocarro sem pagar. As pessoas sorriam
umas para as outras. Vendedores ambulantes ofereciam refrescos aos
manifestantes; aposentados doavam parte das suas magras economias aos
grevistas. Numa demonstração de apoio, os carteiristas abstinham-se de
roubar”, descreveu.Iniciado por estudantes
da Universidade de Pequim, o movimento pró-democracia alastrou-se a
toda a sociedade chinesa e, em meados de maio, o Governo decretou a lei
marcial em Pequim.Inspirada pelos
acontecimentos na capital, que lhe chegavam via BCC, através de um rádio
de ondas curtas, a romancista Zhang Lijia organizou um protesto com
cerca de 300 operários na fábrica de produção de mísseis onde
trabalhava, em Nanjing, na costa leste da China."Sob
o olhar dos líderes da fábrica, os operários desfilaram, como se
caminhassem para uma batalha. Na frente, erguendo uma bandeira vermelha,
tive uma sensação de libertação nunca experimentada antes", descreveu à
agência Lusa a escritora, agora radicada em Londres.O
movimento da Praça Tiananmen foi esmagado na noite de 03 para 04 de
junho de 1989, quando os tanques do exército foram enviados para pôr fim
a sete semanas de protestos.O número
exato de pessoas mortas continua a ser segredo de Estado, mas as "Mães
de Tiananmen", associação não-governamental constituída por mulheres que
perderam os filhos naquela altura, já identificaram mais de 200.Natural
de Pequim e fluente em inglês, o chinês Jiahao nasceu precisamente em
1989, mas foi só quase três décadas depois, quando estudava nos Estados
Unidos, que descobriu o que se passou.“Só
então entendi porque punham os meus colegas uma expressão que era um
misto de curiosidade e cautela, quando me perguntavam o que eu achava do
04 de junho”, lembrou à Lusa.Jiahao teve
que pesquisar no Google - motor de busca bloqueado na China -, para
saber do que se tratava, ilustrando o sucesso do Governo chinês em
censurar qualquer informação relativa ao episódio.“A
China tem sido notavelmente bem-sucedida em eliminar a memória” sobre a
repressão de há 33 anos, disse Louisa Lim, investigadora que escreveu
um livro sobre o movimento, à Lusa.A
autora do "The People's Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited",
publicado em 2014, diz mesmo ter ficado "chocada com o nível de
ignorância sobre as mortes dos estudantes chineses em 1989".A
censura, o sucesso económico das últimas décadas, e a educação
“patriótica”, promovida após o massacre, serviram para desviar a atenção
das novas gerações chinesas para as preocupações económicas, em
detrimento das políticas.Muitos jovens chineses têm outras prioridades, "mais tangíveis", como "encontrar emprego ou comprar uma casa", contou Lim.A
China é hoje a segunda maior economia do mundo e principal potência
comercial do planeta, tendo-se convertido num poder capaz de disputar a
liderança global com os EUA.Chen Xi, 28 anos e gestor de compras num hospital de Pequim, diz que Tiananmen "pertence à geração dos seus pais.""A política não me interessa muito", aponta.Desde
os acontecimentos de 1989, um contrato social implícito foi selado
entre o Partido Comunista e o povo chinês: o partido mantém uma
autoridade indisputada e os privilégios da elite dominante e, em troca,
assegura o crescimento económico, melhoria dos padrões de vida e
elevação do estatuto global do país."Os
protestos pró-democracia da Praça Tiananmen foram uma libertação única
das paixões políticas do povo chinês”, descreveu Yu Hua. Essas paixões
foram “depois substituídas pela devoção ao dinheiro”, resumiu.