Décimo Tremor voltou a trazer “espécies invasoras” benéficas para S. Miguel
3 de abr. de 2023, 17:10
— André Sá/Lusa/AO Online
Com lotação
esgotada, o Tremor contou também com as já habituais caminhadas, ou
‘trekkings’, pelas florestas da ilha de S. Miguel, algumas com bandas
sonoras debitadas em auscultadores pela aplicação de telemóvel do
festival, que proporcionaram aos festivaleiros uma experiência mais
pessoal da natureza da ilha, à medida que se aproximavam dos concertos e
performances que pareciam surgir a meio dos passeios.No
trilho pedestre do Salto do Cabrito, por exemplo, a poucos quilómetros
da capital açoriana, foi possível deambular entre incensos,
criptomérias, polígonos de jardim, conteiras, coníferas diversas,
cavalos, vacas, vapores geotérmicos e fetos, tudo para acabar no que
resta da Central Hídrica da Fajã Redonda a ouvir Holocausto Canibal.“Isto
também é importante para as crianças”, diz à Lusa Rui Tavares,
sociólogo e presidente da associação VidAçores, que promoveu a refeição
comunitária na Casa do Espírito Santo de Rabo de Peixe, com uma ementa
que incluiu bife de atum, sopa de carne, chicharros fritos com molho de
vilão e inhame, feijão assado e caçoila.Para
o sociólogo, “este evento é muito importante porque permite dar a
conhecer de forma genuína Rabo de Peixe, que tem sido muitas vezes
criticada e ostracizada e vítima de algum estigma”, explicou, em alusão à
pobreza existente na vila. Além de
providenciar um rendimento complementar a quem cozinha, a refeição
comunitária integrada no projeto Receitas do Baú contribui para o
trabalho que a associação realiza com crianças e jovens do 1.º ciclo,
com o apoio da Câmara Municipal, num programa de “desenvolvimento de
competências pessoais e emocionais através do ioga.”Horas
antes da refeição, o mercado de Rabo de Peixe recebia as
norte-americanas Angel Bat Dawid e Sophiyah E., naturais de Chicago e
Detroit, respetivamente, que conduziram a Banda Fundação Brasileira, com
160 anos de vida e composta em 90% por músicos amadores, num jazz
experimental em que o sentimento se sobrepôs à afinação.“Elas
nunca afinaram a banda, porque na realidade não havia muito interesse
nisso, só queriam mesmo que o pessoal se sentisse bem a tocar”, explicou
Marco Torre, professor no Conservatório Regional de Ponta Delgada e
diretor artístico do projeto que trouxe o ‘groove’ norte-americano a
Rabo de Peixe.“Nunca gostei do termo
amador, nem do profissional”, concordava Angel Bat Dawid no final do
concerto quase improvisado, “porque a música está dentro de todos nós e é
o sentimento que importa”.O sentimento do
Tremor fez-se sentir também nas terras altas de S. Miguel, onde ainda
subsiste “uma boa representação da flora local”, segundo Martín Souto,
biólogo, botânico e investigador no Centro de Investigação em
Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade dos Açores.“Aqui
temos flora autóctone de toda a Macaronésia [nome moderno que designa
os arquipélagos do Atlântico Norte] e de todo o planeta”, contou,
“porque os portugueses estão há quinhentos anos nas ilhas e passaram por
vários arquipélagos, desde o Havai a outras ilhas do Pacífico, trazendo
assim também flora de todo o mundo”. Martín
Souto apontou que nem todas as invasoras serão necessariamente
prejudiciais, até porque, “por exemplo, muito do bosque autóctone foi
substituído por criptomérias, que são uma espécie de cedro do Japão, e
que aqui planta-se de forma comercial, para a indústria da madeira” e
que não vinga tanto nas terras altas.Um
dos pontos altos do festival, 610 metros acima do nível do mar, deu-se
na Lagoa de S. Brás com o metal/punk dos Cobrafuma, em que o
festivaleiro Francisco Frazão, de capote cor de vinho, alheado ao ‘mosh’
e rodeado de olhares bovinos, sentenciava: “Agora as vacas vão parar de
comer erva e passar a fumá-la”.O Tremor
passou ainda pelo Ateneu Comercial de Ponta Delgada, com Tramhouse,
Parque Urbano, com a autoproclamada clarividência analítica de Fado
Bicha, Coliseu Micaelense, com Pongo, Solar da Graça, com Avalanche
Kaito ou Portas do Mar, com Dame Area e outras propostas de eletrónica
que foram do kuduro ao baile-funk, entre dezenas de outras “espécies
invasoras” que contribuíram para a economia circular da região.