David Neeleman garante "empenho dos privados" na TAP e agradece "muito" o apoio do Estado
29 de jun. de 2020, 10:11
— Lusa/AO Online
“Apesar
de não ter sido essa a nossa proposta, agradecemos muito o apoio do
Estado português através de um empréstimo de emergência à TAP e
aceitamos obviamente as medidas de controlo da utilização desse
empréstimo”, afirma Neeleman numa declaração escrita enviada à agência
Lusa.Após “meses de silêncio", o
empresário justifica esta tomada de posição com a necessidade de
“rejeitar as declarações sobre o empenho dos privados no futuro da TAP”,
garantindo que estes estão “disponíveis para aceitar a participação do
Estado na Comissão Executiva imediatamente e mesmo antes de uma eventual
capitalização do empréstimo”.“Estamos
também disponíveis para capitalizar os nossos créditos na companhia no
momento da aprovação do plano de reestruturação que será negociado com a
Comissão Europeia”, acrescenta.Na nota
enviada à Lusa, Neeleman diz ter “optado pelo silêncio nos últimos meses
por estar concentrado em ajudar a Comissão Executiva da TAP a trabalhar
para encontrar soluções nesta fase muito complexa relativamente ao
futuro da TAP”.“No entanto, e porque há
limites, não posso deixar de rejeitar as declarações sobre o empenho dos
privados no futuro da TAP”, sustenta.“O
nosso empenho – garante - é o mesmo de 2015, quando ganhámos a
privatização e salvámos a TAP de uma situação de insolvência, e após
cinco anos de trabalho muito duro transformámos a TAP numa companhia
renovada, de maior dimensão e preparada para o futuro. Continuamos a
acreditar na TAP apesar desta enorme crise que afetou toda a economia e
em particular o setor da aviação”.Segundo
David Neeleman – que com Humberto Pedrosa, através da Atlantic Gateway,
detém 45% da TAP – “desde o início da crise a equipa executiva tem
trabalhado noite e dia em conjunto com os fornecedores, tendo negociado e
obtido apoios importantes na ordem de centenas de milhões de euros”.“O
nosso foco não é apenas garantir que a TAP sobreviva, mas que recupere a
rota de crescimento que vinha percorrendo e que prospere para que
possamos cuidar dos nossos trabalhadores e clientes”, defende.Neeleman
recorda que a TAP precisa “da ajuda do Estado Português” tal “como
todas as outras companhias aéreas na Europa” e afirma que “todo o
investimento feito pelo Estado” na empresa “tem um retorno garantido,
multiplicado por muitas vezes”.Isto para
além de “um significativo impacto na economia portuguesa, quer pela
estabilidade económica” dos trabalhadores da companhia e da respetiva
“cadeia de valor de fornecedores e parceiros portugueses”, como pelos
“milhões de visitantes” que anualmente transporta para Portugal.“A
TAP é muito importante para o País e estou certo que o Governo
português saberá respeitar os compromissos assumidos com quem acreditou e
transformou a companhia”, afirma.Na
passada quinta-feira, o ministro das Infraestruturas disse confiar no
Conselho de Administração da TAP para fazer o plano de reestruturação da
companhia, mas considerou que “o atual CEO [Antonoaldo Neves] da TAP
valoriza em demasia a briga”.Numa
entrevista ao ‘podcast’ “Política com Palavra”, do Partido Socialista,
Pedro Nuno Santos disse que lhe faz “muita confusão que o CEO de uma
empresa que está de mão estendida ache que se possa relacionar com o
Estado” desta maneira.“Como se nos estivessem a fazer um favor”, criticou o governante.Dois
dias antes, na terça-feira, o presidente executivo da TAP, Antonoaldo
Neves, admitiu que a Comissão Executiva da transportadora está
disponível para aceitar um membro indicado pelo Estado, que atualmente
só está presente no Conselho de Administração.Antonoaldo
Neves, que falava na comissão parlamentar de Economia, Inovação, Obras
Públicas e Habitação, na Assembleia da República, em Lisboa, sublinhou
não ver “qualquer problema” que o Estado, enquanto acionista da TAP,
esteja também representado na Comissão Executiva, considerando até uma
opção “produtiva”.O ministro acrescentou
ao ‘podcast’ do PS que viu as declarações de Antonoaldo Neves com
“alguma perplexidade”, já que quem “vai fazer a injeção” de capital na
empresa é o Estado português, logo, não “era a atual Comissão Executiva
que estaria a fazer um favor ao demonstrar disponibilidade para aceitar
um membro da Comissão Executiva”.Pedro
Nuno Santos disse, no entanto, que o importante, “nesta fase”, é
“garantir o que se faz a cada cêntimo” que vai ser injetado na TAP e que
o sistema de controlo e de monitorização que foi proposto “é muito mais
eficaz do que simplesmente ter um membro numa Comissão Executiva” onde o
Estado não seria maioritário.A Comissão
Europeia aprovou em 10 de junho um “auxílio de emergência português” à
companhia aérea TAP, um apoio estatal de 1.200 milhões de euros para
responder às “necessidades imediatas de liquidez” com condições
predeterminadas para o seu reembolso.Uma
vez que a TAP já estava numa débil situação financeira antes da pandemia
de covid-19, a empresa “não é elegível” para receber uma ajuda estatal
ao abrigo das regras mais flexíveis de Bruxelas devido ao surto, que são
destinadas a “empresas que de outra forma seriam viáveis”.Aos
deputados, Antonoaldo Neves disse que não esperava “nada menos do que
uma Comissão Europeia extremamente dura” nas contrapartidas exigidas à
companhia aérea pelo auxílio que vai receber e lamentou não ter sido
dado à TAP auxílio estatal em forma de garantias, para pagamento de
empréstimos com os bancos privados.O
presidente executivo considerou mesmo “injusta” a decisão da Comissão
Europeia de não permitir que a TAP recorra ao mecanismo especial de
apoio às companhias aéreas, no contexto da pandemia de covid-19, por
considerar que a transportadora que lidera estava já com problemas antes
do surto.O presidente executivo também
disse ser “óbvio” que a TAP não tem condições para pagar o empréstimo
que vai receber de até 1.200 milhões de euros e que quer apresentar o
plano de reestruturação em três meses.