Neste contexto, vejamos
como as ilhas do Pico e do Faial se diferenciam das restantes do
arquipélago açoriano.
O Pico é a ilha de pedras
negras, por entre as quais brota o delicioso verdelho que chegou à
Rússia dos Czares, à mesa do Vaticano e ao convívio das mais
abastadas casas reais do século XIX. Por isso mesmo, desde 2004, a
zona da cultura da vinha desta ilha é classificada como Património
Mundial da UNESCO.
O Parque Natural do Pico
constitui o maior Parque Natural dos Açores. A Gruta das Torres, no
concelho da Madalena, é o maior tubo lávico de Portugal. Tudo nesta
ilha é grandeza.
Em 1924, Raul Brandão,
escritor e pintor impressionista, escrevia no seu livro 'As Ilhas
Desconhecidas': “O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha
dos Açores – duma beleza que só a ela pertence, duma cor
admirável e com um estranho poder de atracão. É mais do que uma
ilha – é uma estátua erguida ao céu e moldada pelo fogo – é
outro Adamastor como o do Cabo das Tormentas”.
Com efeito, o Pico é a
sua montanha de 2.351 metros de altitude, lava e mistério, sendo o
3º maior vulcão do Oceano Atlântico e constituindo o ponto mais
alto de Portugal. Considerada uma das 7 Maravilhas Naturais de
Portugal, a montanha do Pico é Reserva Natural desde 1982.
Ilha da pedra negra. Dizem
que se fossem retiradas dos muros, uma a uma, e alinhadas em
carreirinho pelo chão fora, essas pedras atravessariam ilhas,
continentes e oceanos, dando uma vez e meia a volta ao mundo.
Convirá não esquecer que
a área cultivável do Pico corresponde apenas a 4% do seu
território. Isto significa que 96% do Pico é incultivável.
Esta incapacidade agrícola
levou à epopeia dos maroiços. Atesta-o o património genético dos
picoenses. Estes são tendencialmente altos e corpulentos, destemidos
e vigorosos. Porque, à força dos braços, ousaram dominar a
Natureza.
No Pico dizia-se que o
menino ao nascer era atirado contra a parede; se ele se agarrasse à
pedra, rijinho, podia ficar; se não botava-se ao mar. Daí o
picaroto ser grande como o Pico e forte como o mar.
No 'Corsário das Ilhas'
escreveu Vitorino Nemésio: “O picaroto é a nata das ilhas e, em
verdade, nenhum açoriano se lhe avantaja na conceção séria da
vida. De todos os açorianos, foi o picaroto que levantou a enxada
mais alto e cavou mais fundo”. E ninguém mais do que o picaroto
trabalhou, na dureza e na adversidade, a terra.
Por isso ele foi encontrar
o seu sustento também no mar.
O Pico foi terra de
baleeiros que arpoaram o pão, o sonho, e a esperança. Durante mais
de 100 anos, a caça à baleia, arriscadíssima, foi fonte
indispensável de recursos.
Como santuário da
observação dos cetáceos (whale watching), o Pico tem hoje no
cachalote um símbolo (e um mito) desse passado épico e marítimo.
Resultado: o Museu do Baleeiros nas Lajes, é hoje o museu mais
visitado dos Açores.
Segundo a revista Islands,
“ o Pico é uma das 20 melhores ilhas do mundo para se viver”.
Ilha ancestral, poética, profunda e selvagem, o Pico é uma força
telúrica.
Passemos agora à ilha do
Faial. E o Faial não é só a sua assombrosa Caldeira, Reserva
Natural, espetacular santuário de flora e vegetação, catedral de
um silêncio imponente. E não é só a memória da lava que entre
1957 e 1958 saiu do mar em jatos impetuosos e formaram o Vulcão dos
Capelinhos. É, também, o seu Parque Natural, distinguido pela
Comissão Europeia como um destino de excelência.
O Faial vive em função
da Horta, sede do único concelho da ilha e centro político dos
Açores, já que nela se situa o Parlamento Regional. A Horta é a
importância geoestratégica do seu porto. Porto de escala
obrigatória de barcos e navios, local de reabastecimento de frotas e
descanso das tripulações, a cidade possui a baía mais abrigada dos
Açores.
À beira mar reclinada,
oásis de repouso e de refrescos no meio do Atlântico, a Horta é a
cidade mais ocidental da Europa e dispõe-se em anfiteatro natural,
com o coração inclinado para a majestosa ilha do Pico, cuja
montanha é barómetro eficaz e objeto diário de contemplação
estética dos e para os faialenses.
Esta urbe é orgulhosa do
seu passado flamengo e devedora da ação da família Dabney. A
propósito, convém não esquecer que a Horta foi a primeira
localidade da Europa a possuir uma representação consular
norte-americana logo após a Independência dos Estados Unidos.
E tudo poderia ter sido
diferente se se cumprisse o desejo de Franklin Roosevelt que, em
1918, então secretário da Marinha e futuro presidente dos Estados
Unidos da América, apontou a cidade da Horta como possível sede das
Nações Unidas.
A Horta foi também nó de
amarração de cabos telegráficos submarinos, tendo sido utilizada
como base naval durante as duas grandes guerras mundiais, e a sua
baía foi recentemente classificada com uma das mais belas baías do
mundo.
Lugar de chegadas e de
partidas, porto de acolhimento, a Horta, 'cidade-porto', vive de
memórias e mitos, ela que já foi “a maior cidade pequena do
mundo”, como escreveu o poeta Pedro da Silveira.
Na sua marina, emblemático
ex-libris, está toda uma vocação marítima. Em termos de
movimentação dos “pleasure boats”, a marina da Horta é hoje
considerada a primeira de Portugal, a segunda da Europa e a quarta a
nível mundial.
Para muitos, trata-se da
marina oceânica mais internacional do mundo. Por aqui aportam
veleiros e velejadores provenientes de todas as latitudes (os
“iatistas”), reforçando-se assim o cosmopolitismo da cidade.
Outro espaço mítico é o
Peter Café Sport, considerado o melhor bar do mundo para receber
marinheiros, onde se bebe o gin da amizade universal e ali existe um
magnífico Museu de Scrimshaw.
Esta cidade realiza o
maior e melhor festival náutico de Portugal: a Semana do Mar, com
início na primeira semana de agosto.
Aqui se faz ciência de
ponta com visibilidade internacional através do Departamento de
Oceanografia e Pescas.
Culturalmente, Pico e
Faial continuam a dar boa conta de si em vários domínios: na
música, na literatura, no teatro, na pintura e em outras artes e
ofícios.
É certo e sabido que os
Açores são um espaço de criação. E em nenhuma outra parte da
Europa existirá um território tão pequeno e com tão elevados
índices culturais – o que se fica a dever, em primeira instância,
à influência do meio geográfico (a “açorianidade”) e, depois,
à riqueza do nosso cancioneiro popular.