15 de nov. de 2019, 20:00
— Sónia Bettencourt/AO Online
Num
ano em que se somam mais de duas dezenas de mulheres mortas em
Portugal em contexto de violência doméstica, segundo dados
avançados pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), a
organização do espetáculo “Angra Dança esta Noite” quis fazer
valer o seu espaço em palco, ocupado há cinco edições no Centro
Cultural e de Congressos da cidade, para dar literalmente corpo à
causa. “Trouxemos
novamente a dança em grande ao Centro Cultural, mas o objetivo, este
ano, através desta arte, era mesmo alertar as pessoas para questões
importantes que dizem respeito a todos nós enquanto sociedade”,
enfatiza Lara Costa, presidente da Academia de Dança Paulo Borges do
Sport Clube Barbarense, entidade organizadora do evento, à conversa
com o nosso jornal, após um espetáculo de duas horas que começou a
dar os primeiros passos há vários meses, antes de 9 de novembro,
para poder montar diversos cenários ligados aos temas centrais:
violência doméstica e problemáticas relacionadas com o Clima e
Ambiente. Nesse último com referência às espécies animais em
extinção, à poluição nos mares e aos conflitos na Amazónia.
“A
dança está a evoluir, a nossa paixão mantém-se, mas a dança
também é um veículo que, como as restantes artes, pode e deve ser
utilizado para sensibilizar o público do modo como foi feito aqui
hoje, dando esperança ao mundo, especialmente às novas gerações”,
reforça a responsável, referindo o exemplo dos jovens Rita Cota e
Francisco Cota, o par de dançarinos da coreografia da violência
doméstica, talvez “a mais complexa em termos de emoções”. “Foi
especial e sentida por muita gente”, afirma. E acrescenta: “Somos
uma escola e uma comunidade de dança. Essas preocupações também
devem ser nossas”.
Ao
longo de cinco anos, passaram por Angra do Heroísmo muitos nomes da
linha da frente da dança desportiva, com a participação de pares
nacionais e internacionais, sem esquecer a “prata da casa”.
Em
2019, destaque para Zia James e Petar Daskalov, campeões de dança
do Reino Unido e da Europa e, ainda Elisabete Pera e Duarte Sousa,
Anna Galysheva e Pedro Borralho, bem como Mariana Luís e o Grupo
Latin Soul.
A
animação musical ficou a cargo de Isaías Manhiça, músico
português que ganhou outro reconhecimento depois de ter passado pelo
concurso de televisão “The Voice Portugal”. “Este
evento é muito mais do que preencher uma noite no calendário da
animação cultural da cidade. Tem conteúdo, tem alma”, sublinha
Lara Costa.Dançar
dentro e fora da pistaNesta
janela de expressão participaram seis das oito escolas de dança que
existem atualmente na ilha Terceira, segundo a Associação de Dança
Desportiva da Região Autónoma dos Açores (ADDRAA), reunindo 25
crianças e jovens no total, com treinos e coreografias a cargo de
Pedro Borralho, Mariana Luís, Joana Silva e Lara Costa.
Nas
palavras de Pedro Borralho que dá aulas na Terceira há algum tempo
e participa no “Angra Dança esta Noite” pelo segundo ano, o
talento encontra-se na ilha em porção considerável. “Há gente
aqui com muito talento. Contudo, é preciso ainda mais conhecimento,
desde a parte técnica – luzes e som - à performance, passando
pela entrega à dança”, considera o coreógrafo, treinador de
dança e diretor artístico português, com marcos no currículo como
11 vezes Campeão Nacional em danças standard.
“Espero
que as pessoas tenham percebido, e sobretudo os pais das crianças e
jovens, o que é que nós conseguimos fazer aqui esta noite. A dança,
além de hobbie, pode ser uma profissão. E há que começar a sentir
mais essa valorização da modalidade na Terceira”, desafia o
profissional, tecendo elogios aos apoios públicos e privados
disponíveis na Região para este género de evento, o que, revela,
“não acontece assim no Continente”, e à dedicação de Lara
Costa, da organização. “Estamos no bom caminho e a Lara está em
todas as frentes. Tenho que lhe dar Parabéns e dizer que ela precisa
de uma equipa maior”, avança.
Também
Lara Costa partilha da visão de Pedro Borralho no que diz respeito
ao trabalho na dança para ir ao encontro da profissionalização da
modalidade nos Açores. “Queremos melhorar sempre. Acredito também
ser este o caminho: manter a estrutura, dar mais formação em várias
vertentes e profissionalizar”, assume a dirigente desportiva,
referindo que, em matéria de casa de espetáculo, para acolhimento
desta iniciativa, o Centro Cultural e de Congressos de Angra do
Heroísmo é o espaço ideal para todos. “Nos bastidores dizem-me
que se sente o público aqui a vibrar de maneira diferente”,
remata.
Jorge
com samba no pé
Enquanto
uns podem ter receio de deixar a ilha para prosseguir estudos
superiores na área da dança, partindo de um olhar menos positivo
quanto à sua sustentabilidade financeira, outros aos 14 anos de
idade, já tomaram a sua decisão e, até, com o apoio dos próprios
pais.
“Quero
fazer disto a minha vida. Gosto de música e ritmo, então, há 8
anos, na hora de escolher uma modalidade optei pela dança
desportiva”, conta Jorge Carrasqueira, a frequentar o 9.º ano de
escolaridade, mas com as suas metas bem definidas. “Pretendo ir
para Artes, depois sigo para Dança. Gosto de dançar, é uma forma
de expressar os meus sentimentos. E o meu ritmo preferido é samba. O
samba é mexido e permite descarregar as energias”, adianta o jovem
nascido em Coimbra, filho de pai português e mãe ucraniana,
radicados na Ilha Terceira há 11 anos.
“Não,
não fiquei admirada da sua escolha. A personalidade dele é virada
para Artes, por isso não achei estranho. Ele quer fazer da dança o
seu futuro. Está sempre pronto a dançar. E já viu gente a desistir
da modalidade, por várias razões, mas ele permanece”, destaca
Mariya Tsyuk, mãe do potencial dançarino que participou no “Angra
Dança esta Noite” pela terceira vez consecutiva, assumindo também
o seu gosto pela dança desde os seus tempos de jovem na Ucrânia
onde praticava a modalidade a nível amador.
Na
Terceira, ilha onde chegou como turista e acabou residente, Mariya
Tsyuk enaltece este evento anual que, no seu entender, “ajuda a
perceber o que é a dança; ajuda a perceber que é cultura; e que,
através da actividade física e das coreografias, cativa mais
pessoas e os mais novos”.
Para
Jorge Carrasqueira, o “Angra Dança esta Noite” traz aquela
oportunidade de aprendizagem de elevado grau que não se tem todos os
dias, perante uma plateia maior e sob a orientação de um
profissional como o Pedro Borralho”.
Neste
contexto, o coreógrafo incentiva os pais a deixar os seus filhos
irem em busca dos seus sonhos, dentro ou fora da ilha. Porém,
sublinha, sair do ninho e da zona de conforto para mais longe
permitirá outro crescimento pessoal e profissional. “E, se calhar,
depois, irão voltar à sua terra e desenvolver novos projectos. Os
pais naturalmente vão ficar orgulhosos deles. Caso contrário, será
mais complicado de evoluir”, diz.
Já
a propósito de homens que praticam dança, o jovem luso-ucraniano
confessa que alguns dos seus amigos consideram uma modalidade “mais
indicada” para as meninas. Um ponto de vista que diz “discordar
por completo”, pois a dança “deve ser compartilhada”.
Pedro
Borralho confirma a existência deste estigma nos dias de hoje, o que
na sua perspetiva “é desnecessário”. “A dança é um desporto
para todos”, concretiza.