Damasco bloqueia cerca de 100 camiões de ajuda para Alepo
Turquia/Sismo
7 de mar. de 2023, 08:54
— Lusa/AO Online
No
dia em que se assinala um mês após os sismos devastadores que atingiram
o sudeste da Turquia e o norte da Síria, a organização
não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos acusou o regime
de Damasco de ter bloqueado, entre 09 e 22 de fevereiro, a distribuição
de alimentos, de equipamentos médicos e de tendas naquela região de
maioria curda.Durante o mesmo período,
adiantou a Amnistia Internacional, grupos de oposição armados apoiados
pela Turquia, que fazem parte de uma coligação armada chamada Exército
Nacional Sírio, também impediram a entrada de pelo menos 30 camiões de
ajuda em Afrin, uma cidade a norte de Alepo ocupada pela Turquia.“Em
ambos os casos, a ajuda foi enviada por autoridades curdas, com quem o
Governo sírio e os grupos armados apoiados pela Turquia lutaram pelo
controlo de territórios do norte da Síria”, apontou a ONG.“Os
terramotos deixaram dezenas de milhares de pessoas em Alepo, que já
eram vítimas de um conflito armado com mais de uma década, numa situação
de miséria. Mas, mesmo neste momento de desespero, o Governo sírio e os
grupos armados de oposição cederam a considerações políticas e
aproveitaram-se do sofrimento das pessoas para promover as suas próprias
agendas”, afirmou a vice-diretora da Amnistia Internacional para o
Médio Oriente e norte de África, Aya Majzoub, citada num comunicado da
organização.Para Aya Majzoub, estas
obstruções a uma ajuda humanitária essencial foram motivadas por
questões políticas e tiveram consequências trágicas, “especialmente para
as equipas de procura e resgate das pessoas que ficaram entre os
destroços, porque precisavam de combustível para as máquinas”.“Todas
as partes do conflito, incluindo o Governo sírio e os grupos armados
apoiados pela Turquia, deviam dar prioridade às necessidades dos civis
cujas vidas ficaram suspensas por esta catástrofe natural e garantir que
estas pessoas têm acesso irrestrito a ajuda”, defendeu.No
dia 06 de fevereiro, dois terramotos de magnitude 7,7 e 7,6 na escala
de Richter atingiram a Turquia e o norte da Síria, tendo sido seguidos
de várias réplicas, destruindo milhares de casas em locais onde viviam
milhões de pessoas.A ONU estima que pelo
menos 6.000 pessoas na Síria tenham morrido devido aos sismos e que mais
de 8 milhões precisem urgentemente de ajuda, incluindo 4,1 milhões de
pessoas em áreas controladas pela oposição no norte do país e 4 milhões
de pessoas em áreas controladas pelo Governo.Desde
a tragédia, 2,7 milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas
casas por terem sido destruídas ou terem ficado fortemente danificadas.Há
quase duas semanas, a União Europeia (UE) decidiu modificar
temporariamente as sanções contra o regime do Presidente sírio para
facilitar a rápida entrega de ajuda humanitária às vítimas dos sismos,
tendo o Conselho da UE explicado que as sanções em vigor são dirigidas
contra Bashar al-Assad e os seus apoiantes e contra os setores da
economia que beneficiam com o regime, mas incluem uma ampla exceção
humanitária.A alteração estará em vigor
por um período de seis meses e isenta as organizações humanitárias da
necessidade de solicitar autorização prévia às autoridades nacionais
competentes dos Estados-membros da UE para efetuar doações ou fornecer
bens e serviços destinados a fins humanitários.No
dia do sismo, a UE ativou a Resposta Integrada à Crise Política para
coordenar as medidas de apoio e nos dias seguintes, 08 e 09 de
fevereiro, as autoridades sírias e o Programa Alimentar Mundial na Síria
solicitaram a ativação do Mecanismo de Proteção Civil da UE.Dez
países da UE já ofereceram tendas, sacos de dormir, colchões, camas,
comida e roupas de inverno e Bruxelas já forneceu mais de 3,5 milhões de
euros em ajuda humanitária para cobrir as necessidades mais urgentes no
terreno.O regime de sanções da UE foi
introduzido em 2011 em resposta à violenta repressão da população síria
pelo regime de Assad e aliados e inclui 291 pessoas, que têm os seus
bens congelados e estão proibidas de viajar para a UE, e 70 entidades.