Da cadeira de rodas para o karting, Pedro Valente supera acidente e volta a fazer o que gosta
Hoje 11:22
— Lusa/AO Online
Dia 11 de junho de 2021 foi o dia em que a vida de Pedro Valente, atualmente com 27 anos, sofreu uma reviravolta. “Estava a sair do trabalho e a caminho de casa tive um acidente de moto. E, desde aí, a minha vida toda mudou”, revelou à Lusa. Com
problemas de mobilidade no braço esquerdo e nas pernas, onde não tem
qualquer sensibilidade dos joelhos para baixo em consequência do
acidente, Pedro Valente contou que quando a mãe, que é ortopedista,
soube do acidente explicou-lhe “a frio e a nu” o que tinha acontecido e
que a sua vida nunca mais ia ser igual. A
seguir, sublinhou, vieram quatro anos de muitas lutas, de hospitais, de
fisioterapia, de ginásio e de uma permanência de oito meses no Centro de
Reabilitação do Norte (CRN), em Vila Nova de Gaia, no distrito do
Porto. Pedro Valente, a viver na Maia,
adiantou que, não sabendo se algum dia iria largar a cadeira de rodas,
decidiu que queria praticar algum desporto, dado que tinha o “bichinho
do karting”, modalidade que praticava desde os 15 anos. Tentou
o rugby, o andebol e o ciclismo adaptado, modalidade que era a mais
parecida com o karting e que lhe devolvia “o sorrisinho”, mas faltava
sempre qualquer coisa, apontou. Então, e
não desistindo da ambição que era voltar a andar de karting, pesquisou e
descobriu que em Itália havia uma equipa com um karting adaptado, foi
lá, experimentou e trouxe a ideia para cá. E
desde janeiro que Pedro Valente, que deixou a cadeira de rodas em julho
de 2025, compete em campeonatos da modalidade num karting adaptado cujo
acelerador e travão estão no volante, em vez de estarem nos pedais. Em vez de acelerar e travar com os pés, como se faz no dia a dia, usa as mãos, especificou. “O
normal seria o acelerador estar do lado direito e o travão do lado
esquerdo, a imitar as pernas, mas como eu tenho uma limitação muito
grande no braço esquerdo inverteu-se esse sistema e funciona”,
descreveu. Pedro Valente, que confessou
ser muito competitivo e não gostar de perder, disse que o karting tem
riscos, como todos os desportos, mas quando entra em pista fá-lo sem
qualquer receio e apenas focado em ganhar. “Ser
piloto era o que eu mais gostava de ser antes do acidente e o que eu
mais pedia depois era poder voltar às pistas, e, da mesma maneira que
pensei isso para o karting, também penso para a moto”, confidenciou. Cumprindo
um sonho, que se transformou em dois, voltar a andar, embora com
dificuldades, e voltar às pistas, o próximo é um dia poder voltar a
andar de moto e sentir a liberdade que ela lhe dá, admitiu. Mas,
Pedro Valente não está sozinho neste regresso às pistas tendo como
colega de equipa outro Pedro, o Meireles, que em tempos foi seu
adversário. “Apesar de seremos aliados
agora, a picardia continua igual entre nós, aliás até piora às vezes”,
afirmou Pedro Meireles, de 37 anos, entre risos. Mas
estando agora a “remar para o mesmo lado”, Pedro Meireles contou que
ser colega de equipa de Pedro Valente é desafiante porque aquele é um
atleta quase perfeito sendo, por isso, difícil de o acompanhar. A
conduzir pela primeira vez um carro adaptado, à qual se adaptou
rapidamente e bem, Pedro Meireles reconheceu, contudo, que acelerar e
travar com as mãos é um desafio. “É sempre
um desafio tentar fazer o ponto de travagem, como queremos, com a mão.
Aliás, quase todas as voltas são um desafio”, disse. Pedro
Meireles destacou ainda os bons resultados da equipa, visto que, até ao
momento, ocupa os lugares da frente e a perspetiva é de vencer uma das
competições. Mas, como o ditado diz que
‘não há duas sem três’, aos Pedro´s junta-se o Paulo Moreira, treinador e
responsável pela modificação do karting. Além
do travão e acelerador estarem no volante, Paulo Moreira contou que
criou ainda um apoio de pernas para não pôr em causa a integridade
física dos pilotos em caso de acidente. A
adaptação do karting demorou cerca de um ano e foi feita por tentativa e
erro, e com tecnologia muito básica, revelou, acrescentando que o
karting está preparado para dois pilotos que, fisicamente, são muito
diferentes. “E os dois têm de ter conforto
na condução e têm de sair de um turno de condução sem grandes dores
localizadas e sem grande cansaço”, sublinhou. Paulo
Moreira considerou que tudo na vida pode ser adaptado, portanto, é
importante que as pessoas olhem para isto como sendo normal porque
efetivamente o é e, sobretudo, olhem com mais respeito.“Afinal é só isto, afinal é igual”, concluiu.