Custos do Fundo de Resolução com Novo Banco já somam 7.876 milhões de euros
14 de mai. de 2020, 15:08
— Lusa/AO Online
Do valor investido até
hoje pelo Fundo de Resolução no Novo Banco, 6.000 milhões de euros
vieram diretamente de empréstimos do Estado. Desse valor, 3.900 milhões
de euros foram investidos aquando da capitalização do banco (em 2014) e
2.100 milhões de euros nas recapitalizações dos últimos três anos (2017,
2018 e 2019) feitas ao abrigo do mecanismo de capital contingente.Estes
empréstimos terão de ser devolvidos pelo Fundo de Resolução ao Estado
até 2046, utilizando para isso as suas receitas, que são as
contribuições anuais dos bancos (incluindo o público Caixa Geral de
Depósitos).Já quanto ao restante dinheiro
injetado pelo Fundo de Resolução no Novo Banco desde 2014, que não veio
de empréstimo do Tesouro, mais de 1.200 milhões de euros foi de receitas
próprias (originadas nas contribuições dos bancos) e 700 milhões de
euros de um empréstimo feito em 2014 por vários bancos (o qual está a
ser pago pelo fundo).Os custos da capitalizaçãoFoi
no 'verão quente' de 2014, na noite de 03 de agosto, que o Banco de
Portugal, apoiado pelo governo PSD/CDS-PP então liderado por Passos
Coelho, anunciou a aplicação de uma medida de resolução ao banco da
família Espírito Santo, que no primeiro semestre tinha tido prejuízos de
3,6 mil milhões de euros, resultados que punham a descoberto uma série
de irregularidades financeiras.A medida de
resolução criou então duas entidades: o 'BES mau', que deixou de poder
operar, onde ficaram os ativos e passivos considerados 'tóxicos', e o
Novo Banco, que ficou com os depósitos do BES e com os ativos
considerados de qualidade, capitalizado pelo Fundo de Resolução
(entidade financiada pelos bancos, que está na esfera do Estado e
consolida nas contas públicas) com 4,9 mil milhões de euros.Na
capitalização do Novo Banco, uma vez que o Fundo de Resolução não tinha
dinheiro suficiente, pediu um empréstimo de 3,9 mil milhões de euros ao
Tesouro público, um empréstimo de 700 milhões de euros a oito bancos
(CGD, BCP, BPI, Montepio, Santander Totta, Crédito Agrícola, BIC e Banco
Popular) e o restante valor foram receitas próprias (300 milhões de
euros).Contudo, rapidamente se percebeu
que a capitalização do banco tinha sido ‘curta’, até porque muitos dos
ativos do Novo Banco afinal eram ‘tóxicos’ (crédito malparado, imóveis
sobrevalorizados).Assim, em dezembro de
2015, o Banco de Portugal passou para o ‘banco mau’ BES cerca de 2.000
milhões de euros em obrigações seniores que inicialmente ficaram
protegidas no Novo Banco, aumentando a capitalização do banco. Tal
decisão provocou grandes prejuízos nos investidores dessa dívida, como
os grandes fundos de investimento Pimco e BlackRock, que puseram
processos em tribunal.Após várias
tentativas falhadas de venda, em 2017, já com o governo PS, foi
concretizada a alienação de 75% do Novo Banco ao fundo de investimento
norte-americano Lone Star, mantendo o Fundo de Resolução bancário 25%. O
Lone Star não pagou qualquer preço, tendo injetado 1.000 milhões de
euros no Novo Banco. Foi nessa venda que
foi acordado o mecanismo de capital contingente pelo qual o Fundo de
Resolução pode, até 2026, injetar capital no Novo Banco até ao limite de
3.890 milhões de euros, para cobrir perdas com ativos que o Novo Banco
'herdou' do BES.Contudo, uma vez que as
receitas do Fundo de Resolução não são suficientes para acudir às
necessidades no Novo Banco, todos os anos o fundo pede dinheiro ao
Tesouro público.Referente a 2017, o Fundo
de Resolução injetou 792 milhões de euros no Novo Banco, 430 milhões de
euros dos quais vieram de um empréstimo público. Também em 2018, dos 1.149 milhões de euros postos no Novo Banco, 850 milhões de euros foram de um empréstimo do Tesouro. Na
semana passada foi conhecido que, referente a 2019, o Fundo de
Resolução colocou 1.035 milhões de euros no Novo Banco, 850 milhões de
euros dos quais vieram diretamente do Estado.Inicialmente,
o valor pedido pelo Novo Banco foi de 1.037 milhões de euros, mas a
transferência foi feita com menos dois milhões de euros. A Lusa
questionou o Banco de Portugal sobre a diferença, mas não obteve
resposta.Segundo o jornal Expresso, o
valor de dois milhões de euros não transferido corresponde aos bónus do
Conselho de Administração Executivo liderado por António Ramalho.Assim,
no total, os custos do Fundo de Resolução com o Novo Banco já somam
7.876 milhões de euros desde agosto de 2014, dos quais 6.000 milhões de
euros vieram diretamente de empréstimos do EstadoOutros custosContudo,
os custos do Fundo de Resolução com o Novo Banco não se esgotam no
valor acima referido. É que ao abrigo do mecanismo de capital
contingente o Novo Banco ainda pode ir buscar mais 914 milhões de euros,
uma vez que já recebeu 2.976 milhões de euros desde 2017 mas o
mecanismo acordado prevê que possa ir buscar 3.890 milhões de euros.Além
disso, nem com os custos do Novo Banco se esgotam os custos do Fundo de
Resolução com todo o processo da resolução do BES. Há ainda que somar
muitos outros encargos, a maior parte dos quais não são possíveis de
quantificar.Em tribunal há processos
relativos à resolução do BES que visam o Novo Banco, que terão de ser
pagos pelo Fundo de Resolução caso os contestatários ganhem as ações.O Fundo de Resolução terá ainda de pagar a quem for reconhecido ter créditos sobre o BES. A
consultora Deloitte concluiu em 2016, em auditoria pedida pelo Banco de
Portugal, que os credores comuns do BES recuperariam 31,7% dos seus
créditos caso o banco tivesse ido para liquidação, em vez de resolução,
pelo que o Fundo de Resolução terá de assumir esse valor (provavelmente
no fim do processo de liquidação do BES, que poderá tardar anos).O
governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, explicou no parlamento,
em 2017, que o Fundo de Resolução ainda pode ser chamado a entrar com
mais capital no Novo Banco, caso haja outras perdas que resultem de
atividade não protegida pelo mecanismo de compensação.Nesse
caso, segundo o contrato de venda, as perdas têm de ser assumidas
"pelos acionistas na proporção do capital" e o Fundo de Resolução tem
25%.