Cuidados de psiquiatria no sistema prisional em “situação de rutura”, alerta sindicato
Hoje 17:11
— Lusa/AO Online
Em
comunicado, o SIM salientou que se vive uma “situação de rutura” nos
cuidados de psiquiatria no sistema prisional, decorrente de uma “gestão
administrativa centralizada e alheia à realidade clínico-assistencial”.“Apesar
da carência crítica de profissionais, a Direção-Geral de Reinserção e
Serviços Prisionais continua a bloquear, há mais de um ano, a
implementação da dedicação plena, direito legalmente estipulado,
desincentivando ativamente a fixação de especialistas”, lamentou o
sindicato.O SIM apontou como a “mais
recente prova inequívoca desta falha de gestão” o recente concurso para
vagas de psiquiatria, que “apenas tinha conseguido captar quatro
candidatos”, mas que terminou sem nenhuma colocação.“A
ingerência administrativa da direção máxima da DGRSP na imposição de
horários - atropelando a autonomia técnica das coordenações clínicas no
terreno - determinou a perda imediata de todos os candidatos”, referiu a
estrutura sindical.De acordo com o
sindicato, a Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental (CPSM) do
Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo “opera num cenário de
grave negligência assistencial”, contando com apenas um psiquiatra para
400 reclusos.Quanto à CPSM do Hospital
Prisional São João de Deus, apresenta uma “desorganização estrutural”,
alocando três psiquiatras para 80 doentes internados, num serviço cuja
lotação máxima regulamentar é de apenas 50 camas, alertou o SIM.O
SIM sublinhou que "as sucessivas soluções técnicas e organizativas
desenhadas pelas equipas médicas para mitigar este colapso têm sido
sistematicamente ignoradas, bloqueadas e ou invalidadas pela direção” da
DGRSP.“Esta postura de obstaculização
administrativa, frequentemente passiva, reflete um grave alheamento face
ao risco clínico, comprometendo a segurança de profissionais e
doentes”, que não têm alternativa para receber cuidados de psiquiatria
por estarem privados de liberdade, alertou. No
comunicado, o sindicato exigiu “respeito absoluto pela autonomia
técnica na gestão dos serviços de psiquiatria”, mas também a “suspensão
imediata de práticas de gestão que já empurraram a prestação de cuidados
de saúde no sistema prisional para o colapso operacional”, resultando
até em “processos judiciais contra o próprio Estado por negação de
cuidados”.Em resposta à Lusa, a DGRSP
reconheceu que ao concurso para 14 vagas em psiquiatria só se
apresentaram quatro candidatos que, no final, não aceitaram os lugares. “Para
colmatar as necessidades, a DGRSP está a recorrer a contratos de
avença, sendo que na generalidade dos 49 estabelecimentos prisionais há
assistência psiquiátrica mediante contratos de avença ou de protocolos
com outras entidades”, assegurou a direção-geral.A
DGRSP realçou ainda que, sendo os reclusos utentes de pleno direito do
SNS, a direção-geral “socorre-se, sempre que necessário, dos serviços
desta especialidade que são prestados” pelo serviço público de saúde."Reconhecendo-se
as dificuldades porque passa a prestação de cuidados de psiquiatria no
sistema prisional, considera-se que os procedimentos que têm sido
adotados tornam desadequado que a situação seja adjetivada como
crítica”, referiu a DGRSP.