Cruz Vermelha usou artifícios para esconder o que é financiamento estatal
12 de dez. de 2018, 10:45
— Lusa/AO Online
O relatório, que
veio a público na sequência das buscas que PJ fez na terça-feira à IGF, à
Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e ao Ministério da Defesa, refere-se às
contas da instituição relativas aos anos de 2013, 2014 e 2015. Segundo
a auditoria da IGF, a CVP atrasou-se de forma recorrente na aprovação
de contas e no envio obrigatório às entidades responsáveis, uma violação
das regras que pode fazer com que a instituição perca a declaração de
utilidade pública.“A
CVP encontra-se sujeita ao cumprimento do Decreto-Lei (…) que
estabelece os deveres especiais das PCUP [Pessoas Coletivas de Utilidade
Pública], que incluem o de enviar por meio de transmissão eletrónica à
Secretaria Geral da Presidência do Conselho de Ministros, o relatório de
atividades e as contas do exercício relativo ao ano anterior, no prazo
de seis meses após a sua aprovação”, refere a IGF.No
relatório de auditoria – que data de 2016 mas que segundo o jornal
Público só agora seguiu para o Tribunal de Contas - a IGF sublinha mesmo
que a CVP não tem cumprido tal obrigação e que isso “pode configurar
uma violação reiterada dos deveres legalmente impostos às PCUP, e
consequentemente, determinar a cessação da declaração de utilidade
pública”.Sobre
o financiamento público na CVP, a IGF diz – relativamente às contas de
2013 e 2014 - que “a grande fatia de dinheiros públicos” recebidos na
instituição foi registada como “prestações de serviços” e apenas uma
reduzida parcela (menos de cinco milhões de euros) foi considerada como
“subsídios, subvenções ou apoios públicos”.Tal
situação, “configura uma aplicação incorreta do modelo de normalização
contabilística” a que a instituição se encontra sujeita”, considera a
IGF, que diz que o procedimento usado “não é mais do que “um artifício
para ocultar a verdadeira origem/natureza dos rendimentos e, assim, não
evidenciar que é realmente o Estado quem financia uma parte muito
significativa da atividade da CVP”.É
evidente que “as subvenções públicas têm permitido à Cruz Vermelha
Portuguesa manter uma volumosa almofada financeira geradora de elevadas
reservas de liquidez, mas em relação às quais podem não ter sido
adotadas as melhores medidas de gestão de riscos”, refere ainda a IGF.Refira-se
que as disponibilidades – de 19,7 milhões de euros, em 2013, e de 20,8
milhões, em 2014 – “situaram-se praticamente ao mesmo nível dos
montantes que a CVP recebeu a título de subvenções públicas nos mesmos
anos”, respetivamente, 19,3 milhões e 21,6 milhões.À
exceção das verbas do INEM, que assumem a natureza de prestação de
serviços, “todos os dinheiros públicos que a CVP recebe, nomeadamente,
para apoio social (do Instituto de Segurança Social) e para formação e
emprego (do Instituto de Emprego e Formação Profissional), revestem a
natureza de subsídio público para o financiamento da sua atividade
enquanto parceira do Estado nas respostas a situações de carência dessas
populações-alvo”, recorda o documento.Ao
referir o peso que o financiamento público tem nas contas da CVP e a
natureza da instituição, fora as situações de catástrofe, a IGF
questiona a dimensão da frota automóvel apresentada face à missão da
instituição. Segundo
o documento, a CVP tinha 370 ambulâncias de transporte de doentes não
urgentes, requisitadas pelas administrações regionais de saúde (ARS),
centros hospitalares ou privados, 143 ambulâncias de emergência
(requisitadas pelo INEM, Centros Hospitalares e ARS) e duas ambulâncias
medicalizadas e de cuidados intensivos (apenas requisitadas por
hospitais).Tinha
ainda seis embarcações/botes para socorro aquático e 13 veículos
motorizados para diversas funções (todo-o-terreno/estafetas). A IGF
estranha ainda que a CVP nem sequer divulgue no seu sítio da internet24,
nem em qualquer outro meio de informação/comunicação de âmbito
nacional, nem as suas contas anuais, nem os valores de subvenções/apoios
financeiros públicos, evidenciando total falta de transparência (…)
perante o Estado, os seus ‘stakeholders’ e os cidadãos em geral”.Finalmente,
a IGF questiona por que razão são concedidos apoios públicos à CVP
mesmo quando esta não cumpre as suas obrigações para com o Estado e qual
a base legal.O relatório da IGF foi divulgado na íntegra na terça-feira pela RTP.