Cruz Vermelha quer novas regras nos apoios do Estado perante aumento de pedidos de ajuda

29 de jun. de 2024, 10:19 — Susana Venceslau /Lusa

Em entrevista à agência Lusa quando faz um ano à frente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), António Saraiva adiantou que entre 2022 e 2023 os pedidos de ajuda aumentaram cerca de 73%, depois de entre 2021 e 2022 terem duplicado, e disse que a perceção é de que a tendência deverá manter-se em 2024.Segundo o presidente da CVP, os pedidos de ajuda chegam diretamente às várias delegações espalhadas pelo país e vão desde alimentação, seja através da confeção de refeições ou atribuição de vales para a compra de produtos em supermercados, a pedidos para pagamento de rendas de casa, faturas de luz ou de água.“Temos sentido um crescimento (…) e, nas condições em que leio a nossa economia e a situação em que o mundo se encontra, acho que a tendência é para continuar com aumentos”, apontou António Saraiva.Garantiu que o organismo “não deixará ninguém para trás” e que “responderá ‘presente’ a todos os pedidos de apoio”.“É essa a nossa missão, é essa a nossa função e naquilo que estiver ao nosso alcance, extravasando por vezes as nossas possibilidades, não deixaremos de ajudar ninguém que procure o nosso auxílio”, afirmou António Saraiva.Apontou, por outro lado, que o contínuo aumento no número de pedidos de ajuda faz com que “a maior preocupação” seja a sustentabilidade financeira da instituição, quando as despesas são mais elevadas do que as receitas.Salientou que a CVP tem várias valências, desde Estruturas Residenciais para Idosos (ERPI), equipamentos para a infância, apoio a pessoas em situação de sem-abrigo ou vítimas de violência doméstica, mas a instituição vive “fundamentalmente de donativos e dos serviços que presta ao Estado”.António Saraiva defendeu que “faria sentido” diversificar as fontes de receita e estabelecer com o Governo novas regras de contratualização.“O apoio nos protocolos que fazemos com o Estado, o apoio que se recebe por utente, é insuficiente face ao real custo que esse utente tem”, apontou.Deu como exemplo o que se passa com o Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), um programa de apoio a refugiados, através do qual o Estado português contratualiza com várias organizações o acolhimento e integração destas pessoas, por um prazo de 18 meses.“Ao fim desses 18 meses cessa abruptamente o apoio, mas, na maior parte das vezes, o refugiado não está integrado e o que é que a Cruz Vermelha faz nesses casos? Põe as pessoas na rua? Abandona as famílias? Não fazemos isso. Então urge ir junto do Estado, junto do Governo e tentar adaptar as necessidades aos tempos que vivemos e eventualmente os 18 meses serem prolongados nos casos em que seja necessário”, defendeu.Outra questão tem a ver com o salário mínimo nacional, aumentado por decreto, mas que depois “o Governo não reflete naquilo que paga às valências que contratualiza”.“Há que ser honesto na negociação e minimamente adaptar estas novas necessidades à sustentabilidade destas organizações porque o Estado não deve usar estas organizações para que elas façam o trabalho que o Estado deve fazer”, salientou.“Tem de haver um equilíbrio porque a função social é do Estado. (…) Não viva o Estado à custa da Cruz Vermelha Portuguesa”, acrescentou António Saraiva.Lembrou, a propósito, que a Cruz Vermelha foi “a primeira e até agora a única entidade” a montar um posto médico avançado após o incêndio no Hospital do Espírito Santo, em São Miguel, nos Açores, para demonstrar que no apoio social também há “um grau de imprevisibilidade” que traz despesas inesperadas.“O que eu quero é ter no Estado uma entidade de bem que, negociando numa base de transparência, adapte a receita à necessidade”, apontou, acrescentando que já estão a decorrer negociações com o atual Governo.Relativamente à sustentabilidade financeira da instituição, que admitiu ser a sua “maior preocupação” desde que assumiu a presidência, garantiu que “até agora não esteve em causa”, mas salientou que, para que não venha a estar, é preciso conseguir antever as dificuldades.António Saraiva apontou que as organizações têm hoje de estar preparadas para lidar com o “crescente aumento das necessidades” e dos pedidos de apoio.“Há que acautelar esse próximo futuro para que não venhamos a entrar em desequilíbrio”, defendeu, sublinhando que as empresas vão à falência por problemas de tesouraria e que esse é um problema que pretende evitar.Disse ainda que a reestruturação financeira da instituição tem vindo a ser feita através da otimização das estruturas existentes, melhoramento de valências e racionalização de recursos.