Crises de segurança, alimentar, energética e ambiental no debate da Assembleia Geral da ONU
19 de set. de 2022, 11:55
— Lusa/AO Online
O debate de alto
nível a começar terça-feira na Assembleia Geral, em Nova Iorque, com
líderes de todo o mundo, surge num momento do conflito ucraniano em que a
Ucrânia recupera terreno e causa crescentes dificuldades aos invasores
russos, esperando-se que as potências ocidentais reafirmem apoio a Kiev e
procurem maior pressão sobre o Kremlin da parte de países com posições
vagas, nomeadamente os africanos.Por outro
lado, espera-se que a Rússia utilize este evento para alcançar
exatamente o oposto: "tentar minar a narrativa dos Estados Unidos e da
Europa sobre a guerra", segundo disse à Lusa Richard Gowan, um
especialista no sistema das Nações Unidas, Conselho de Segurança e em
operações de manutenção da paz.A delegação
russa para o evento será chefiada pelo ministro dos Negócios
Estrangeiros, Serguei Lavrov, que, segundo Gowan, não apenas será capaz
de ignorar as tentativas de isolamento, como tentará minar as narrativas
ocidentais sobre a guerra."Lavrov é um
veterano jogador da ONU e foi embaixador russo em Nova Iorque durante a
guerra do Iraque. Ele ignorará as críticas ocidentais e não mostrará
dúvidas sobre o direito da Rússia de atacar a Ucrânia. Ele também
tentará usar reuniões bilaterais para encantar líderes não-ocidentais e
minar a narrativa dos Estados Unidos e da Europa sobre a guerra",
avaliou o analista.Esta invasão foi um
choque histórico para o sistema internacional, tendo ainda mais peso por
ter sido levada a cabo por um membro permanente do Conselho de
Segurança, órgão da ONU cujo mandato é zelar pela manutenção da paz e da
segurança internacional.Após sete meses
de conflito, a ONU acredita que a paz ainda está longe de ser alcançada e
aproveitará a Assembleia-Geral para tentar avançar em questões
específicas como facilitar a exportação de alimentos e fertilizantes da
Ucrânia e da Rússia, garantir a segurança na central nuclear de
Zaporijia e assegurar um tratamento digno aos prisioneiros de guerra.Embora
o problema seja mais profundo, a guerra na Ucrânia agravou a crise
alimentar em muitos países em desenvolvimento, que exigirão mais apoio
das Nações Unidas para evitar uma possível catástrofe.Segundo
a ONU, este ano há o risco de fome em países como o Iémen, Somália,
Etiópia, Sudão do Sul, Nigéria ou Afeganistão e durante a próxima semana
várias reuniões paralelas serão realizadas em Nova Iorque para tentar
impedir que a ameaça se torne realidade.Enquanto
isso, a crise energética decorrente do conflito ucraniano será uma das
principais preocupações dos países europeus, que se preparam para um
inverno difícil.A outra grande crise que
será discutida na ONU é a climática, já que António Guterres anunciou
que usará a próxima semana para procurar mais compromissos nessa área,
principalmente entre os países mais ricos.Também
o dossiê nuclear iraniano e as relações fraturantes entre as duas
grandes potências económicas - Estados Unidos e China - serão temas que
mobilizarão atenções na ONU.Como habitual,
será o Brasil o país a abrir os discursos de alto nível na 77.ª
Assembleia Geral, através do Presidente do país, Jair Bolsonaro, na
manhã de terça-feira. Contudo, a ordem
habitual dos discursos será invertida, uma vez que os Estados Unidos -
anfitrião do evento e tradicionalmente o segundo a apresentar-se -, só
intervirão na quarta-feira, devido à presença do chefe de Estado, Joe
Biden, no funeral da Rainha Isabel II - a decorrer na segunda-feira.De
acordo com Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU,
António Guterres, o facto de muitas figuras de Estado viajarem para
Londres para participar na cerimónia fúnebre da ex-monarca britânica
obrigou à alteração da ordem dos trabalhos nas Nações Unidas."Os
nossos colegas responsáveis pela programação estão realmente a tentar
encaixar tudo, porque, obviamente, a mudança nas viagens de alguns
líderes mundiais tiveram impacto nos nossos encontros bilaterais, mas
espera-se que o secretário-geral tenha um grande número de reuniões
bilaterais com chefes de Estado, Governos, ministros das Relações
Exteriores e outros dignitários", disse Dujarric num 'briefing' à
imprensa. As despedidas da rainha de
Inglaterra causarão alterações também na cimeira sobre a Educação
convocada para hoje por António Guterres, que optou por não se deslocar
ao Reino Unido para liderar aquele encontro.Inicialmente,
pelo menos 90 chefes de Estado planeavam participar nessa cimeira, mas
as Nações Unidas já confirmaram que muitos mudaram os seus planos,
fazendo-se representar por outras figuras de Estado.