Crise climática global arrastou um milhão de pessoas para a fome aguda em Madagáscar
27 de out. de 2021, 07:24
— Lusa/AO Online
O relatório "Será
demasiado tarde para nos ajudarem quando já estivermos mortos" documenta
o impacto da seca nos direitos humanos das pessoas na região do "sul
profundo" de Madagáscar, onde 91% da população vive abaixo do limiar da
pobreza, e serve de argumento à Amnistia Internacional (AI) para apelar à
tomada “urgente” de medidas por parte da comunidade internacional, que
se prepara para se reunir no final do mês em Glasgow na 26ª Conferência
das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26)."Madagáscar
está na linha da frente da crise climática. Para um milhão de pessoas,
significa uma seca de proporções catastróficas, e violações dos seus
direitos à vida, saúde, alimentação e água. Pode significar a morte por
fome. Isto está a acontecer agora”, alerta Agnès Callamard,
secretária-geral da AI, numa nota de divulgação do relatório. “As
atuais projeções das alterações climáticas indicam que as secas deverão
tornar-se mais graves e afetar desproporcionadamente as pessoas nos
países em desenvolvimento. Antes das negociações climáticas da ONU na
COP26, este é um alerta para que os líderes mundiais deixem de arrastar
os pés na questão da crise climática", acrescenta a ativista.A
Amnistia Internacional chama a atenção para o facto de as violações dos
direitos humanos por efeito das alterações climáticas serem, na
legislação internacional, da “responsabilidade de todos” os países
poluidores e sustenta que “a comunidade internacional deve fornecer
imediatamente à população de Madagáscar afetada pela seca uma ajuda
humanitária acrescida e um financiamento adicional para as perdas e
danos sofridos”. “No futuro, os países que
mais contribuíram para as alterações climáticas e aqueles com mais
recursos disponíveis devem também fornecer apoio financeiro e técnico
adicional para ajudar a população de Madagáscar a adaptar-se melhor aos
impactos das alterações climáticas, tais como secas cada vez mais
severas e prolongadas", defende ainda a organização não-governamental.Madagáscar,
país vizinho de Moçambique, no oceano Índico, está entre os países mais
vulneráveis às alterações climáticas - é o quarto no ranking das Nações
Unidas - e as evidências científicas demonstram que as mesmas
contribuíram para o aumento da temperatura e a diminuição das chuvas no
semiárido sul profundo do país, que vem a registar precipitações abaixo
da média há cinco anos consecutivos. Segundo
as Nações Unidas, Madagáscar está à beira de sofrer a primeira grande
fome provocada pelas alterações climáticas em todo o mundo.O
Programa Mundial Alimentar das Nações Unidas (PAM) e a Organização das
Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertaram em maio
deste ano que cerca de 1,14 milhões de pessoas enfrentavam elevados
níveis de insegurança alimentar aguda no sul de Madagáscar, e que quase
14.000 pessoas se encontravam então num estado de "catástrofe" - o nível
mais elevado de insegurança alimentar numa escala de cinco etapas da
Classificação da Fase Integrada da Segurança Alimentar (IPC). Este estado ou nível é registado pela primeira vez desde que a metodologia IPC foi introduzida em Madagáscar em 2016.De
acordo com a FAO, 95 por cento das pessoas que enfrentam insegurança
alimentar aguda no sul de Madagáscar dependem da agricultura, pecuária e
pesca. Mas estações chuvosas abaixo da
média, ao longo dos últimos anos, levaram a uma grave redução na
produção de alimentos básicos, incluindo arroz e mandioca, bem como ao
declínio do efetivo pecuário. A seca causou a morte de gado, agravando
os meios de sobrevivência das pessoas.Marie
Christine Kolo, uma ativista local da AI em Madagáscar, deu conta numa
conferência de imprensa online de apresentação do relatório esta
terça-feira que recolheu o testemunho de uma mulher no sul profundo do
país, que explicou como a pesca também é cada vez menos uma alternativa.
“Ventos fortes prolongados, durante um mês, tornou impossível a saída
dos barcos para o mar”, disse a mulher à jovem ativista. “A
seca representa uma ameaça iminente ao direito à vida, bem como a
outros direitos, tais como a saúde, água, saneamento e alimentação das
populações do sul de Madagáscar” e está afetar particularmente as
mulheres e crianças, aponta o relatório, que deixa diversas
recomendações ao Governo do país e à comunidade internacional. “Já
não podemos aceitar que os grupos mais pobres e marginalizados da
sociedade sejam os que pagam o preço mais alto pelas ações e as falhas
dos maiores emissores mundiais de dióxido de carbono", sublinhou Agnès
Callamard.E "o pior é que se espera que as
secas se tornem cada vez mais graves nesta parte de Madagáscar, o que
só pode significar uma contínua erosão da proteção dos direitos
humanos", acrescentou a ativista. A AI
apela, por isso, aos líderes mundiais que se reunirão em Glasgow entre
31 de outubro e 12 de novembro para que criem “um mecanismo global de
apoio às pessoas cujos direitos foram afetados”, em que “os governos
ricos paguem os custos através de financiamento novo e adicional não
sujeito a reembolso”.A organização
recomenda ainda que sejam garantidos os direitos à informação e
participação na tomada de decisões relacionadas com o clima às pessoas
afetadas, a todos os níveis.Além disto, e
entre outras recomendações, “a Amnistia Internacional apela aos países
mais ricos para que aumentem substancialmente as suas contribuições
financeiras para a redução de emissões consistente com os direitos
humanos e medidas de adaptação ao clima em países menos ricos”.