Crianças replicavam em casa comportamentos vividos na creche de Rabo de Peixe
Hoje 09:15
— Daniela Arruda
Brincar com o irmão como quem dá ordens, puxar os próprios cabelos e
levar colheres à boca com força. Estes foram alguns dos comportamentos
replicados por crianças alegadamente vítimas de maus-tratos na creche da
Casa do Povo de Rabo de Peixe.Durante muito tempo, os pais não
perceberam o seu significado, só depois de as imagens terem vindo a
público começaram a associá-los ao que poderá ter acontecido dentro da
instituição.A quarta sessão do julgamento das quatro
ex-auxiliares do Centro de Apoio à Criança 1, ficou marcada por mais
depoimentos de pais que deram voz às experiências vividas pelos filhos.
Em vários casos, os comportamentos repetiam-se em casa, sobretudo
aqueles que estavam associados à hora da refeição.Uma mãe contou que
a filha, durante as refeições, pegava na colher pelo cabo e enfiava-a
na boca do irmão “até lá atrás”, e que chegava a fazê-lo engasgar-se.
Disse que a criança fazia isso há muito tempo, mas que nunca tinha
percebido porquê e repreendia-a: “Ela dava chapadas na testa do irmão e
colocava a colher na boca dele com força, ele afogou-se. Ela ia com o
cabo da colher. Ela imitava os gestos que as auxiliares faziam com as
crianças”, relatou.Outra mãe partilhou que a filha, diagnosticada
com autismo, puxava o próprio cabelo e fazia gestos com a mão que
empurravam a cabeça para trás. Os pais acreditavam que era por ter
autismo, mas a verdade é que hoje reconhecem semelhanças com as
situações que têm vindo a ser descritas em tribunal. Disse ainda que,
desde que deixou de ter contacto com as ex-funcionárias, esses
comportamentos desapareceram.A mesma mãe recordou o estado em que a
filha chegava a casa no final do dia, despenteada, com roupa suja e com
os óculos machados com restos de comida: “Podia levar quatro mudas de
roupa, vinham as quatro sujas de vomitado”, afirmou.Nem todas as
crianças conseguiam falar, mas, segundo os pais, todas conseguiam
comunicar: através de gestos, comportamentos e reações, ou
comportamentos. Um pai considerou que já tinha o suficiente para
apresentar uma queixa junto de várias entidades, como a Casa do Povo, a
Segurança Social e a Direção Regional da Educação.“Quando vi as
gravações tive a confirmação de que a minha filha não era mentirosa, eu
sempre acreditei nela”, afirmou. Disse ainda que a criança se queixava
frequentemente de uma das auxiliares, acusando-a de empurrões, puxões de
cabelo, alimentação forçada e episódios com vomitado. Contou ainda uma
situação em que se só teve conhecimento que a menina estava com dores
num braço desde a hora de almoço quando chegaram para a ir buscar.
Acabou por ir para o hospital, onde foi diagnostica uma deslocação no
ombro.Também foi ouvida uma família em que a filha não aparece nas
imagens, mas cujo nome surgiu durante a fase de inquérito. Os pais
disseram que nunca suspeitaram de maus-tratos, associavam os sinais a
situações normais, mas recordaram vezes em que a criança chegava da
escola com o cabelo sujo de comida seca. Ao longo da sessão,
ouviram-se vários relatos de arranhões, nódoas negras, um dente partido,
um par de óculos sem lente e feridas em que a origem nunca ficou clara.
Os pais admitem que hoje não conseguem distinguir o que foram acidentes
de crianças do que poderá ter sido episódios de violência.O julgamento prossegue no dia 5 de maio.