Crianças do 1.º ciclo e raparigas são quem mais sofre de ‘bullying’ nas escolas
2 de fev. de 2025, 09:30
— Lusa/AO Online
A plataforma
informal de denuncia de casos de 'bullying' foi lançada pela Associação
Plano i em 30 de janeiro de 2020 e, desde então, recebeu 666 denúncias, a
maioria no primeiro ano de atividade, em que foram recebidas 407
queixas.Ao longo dos últimos cinco anos,
as tendências mantiveram-se: as raparigas são mais vulneráveis, os casos
acontecem sobretudo no recreio sob a forma de violência psicológica e
são vários os agressores.Segundo um
balanço das denúncias reportadas entre 2020 e 2024, a média das idades
das vítimas é 13,7 anos, maioritariamente raparigas (59%), enquanto os
agressores foram sobretudo rapazes (56%) com uma média de 13,23 anos.Os
dados mostram também que os anos de escolaridade de maior ocorrência
são no 1.º ciclo (32,9%), seguido do 3.º ciclo (23,4%) e do 2.º ciclo
(22,4%), mas não significa que as crianças mais novas sejam mais
vulneráveis, sugere Mafalda Ferreira, coordenadora do Observatório, em
declarações à Lusa.“Podemos assumir que os
pais, o pessoal docente e não docente, as testemunhas estão mais
sensibilizadas, por vezes, em torno da idade da criança, o que faz com
que haja uma maior tendência para repudiar este comportamento e
considerá-lo digno de ser comunicado”, refere a investigadora,
sublinhando que, por outro lado, a supervisão nas escolas também é maior
no 1.º ciclo.Os relatos, apresentados
frequentemente pelos encarregados de educação, mostram que as situações
de ‘bullying’ ocorrem sobretudo nos recreios, durante os períodos de
intervalo, mas com as novas tecnologias acabam por extravasar, cada vez
mais, esse contexto.Esta tendência começou
durante a pandemia da covid-19, quando as escolas fecharam portas e os
alunos continuaram a estudar em casa, mas não se limitou a esse período e
tem-se agravado desde então, refere Mafalda Ferreira.“Não
podemos ignorar o que vemos à nossa volta no contexto das camadas mais
jovens e do uso precoce dos telemóveis. Faz com que o ‘bullying’ não
cesse naquele momento”, sublinha, referindo como exemplo que os alunos
podem ser vitimas mesmo dentro da sala de aula, através das redes
sociais, e depois de regressarem a casa. Apesar
de a maioria das situações continuarem a ocorrer presencialmente, 4,8%
dos casos denunciados foram ‘online’ e em 22,5% as vítimas sofreram nos
dois contextos.Muitas vezes, o ‘bullying’
ocorre quase todos os dias (54%) e em 21,4% dos casos é mesmo uma
realidade vivida diariamente pelas vítimas, sendo que os agressores são
quase sempre colegas da mesma escola.Em média, por cada vítima são contabilizados três agressores, um dado que Mafalda Ferreira considera preocupante.“Reforça
a vulnerabilidade destas vítimas e alguma sensação de falso
empoderamento por parte das pessoas agressoras. É um delito que acontece
de forma coletiva e pode até ser potenciado nesse sentido”, explica.Trata-se
também, na esmagadora maioria dos casos, de violência psicológica,
muitas vezes combinada também com violência social e física, sendo que
entre as mais de 600 denúncias recebidas houve casos de violência sexual
e financeira.Os motivos mais apontados
são o aspeto físico das vítimas (51,9%) e os resultados académicos
(34,9%), havendo também quem sofra devido à idade, sexo, orientação
sexual e identidade de género, e nacionalidade e etnia.O
resultado é quase sempre o mesmo: ansiedade, tristeza, vergonha e
dificuldades de concentração. Mas as consequências dos casos relatados
não se ficam por aí: em 44% dos casos as vítimas tiveram de receber
apoio psicológico e em 20,9% tratamento médico.Ao
longo dos cinco anos, registaram-se situações mais graves, sendo que
perto de 90 denúncias relatam que os jovens estiveram em risco de vida e
cerca de 30 relatam a necessidade de hospitalização.