Criada a Associação Bento de Jesus Caraça para promover a cultura integral do indivíduo
29 de dez. de 2018, 19:34
— Lusa/Ao online
Esse grupo, composto sobretudo por pessoas oriundas do meio académico, fundou a Associação Bento de Jesus Caraça (ABJC) com o intuito de divulgar o pensamento do investigador, autor de "A Cultura Integral do Indivíduo", conferência proferida em 1933, por entender que é "importante para a revitalização da sociedade portuguesa", disse à agência Lusa o presidente da associação, Luís Saraiva."Agora que se está numa sociedade em que a informação está disponível em enormes quantidades e não filtrada para as pessoas", a figura do Bento de Jesus Caraça e a defesa de uma emancipação do ser humano pelo conhecimento "é a melhor arma para se ser crítico perante a sociedade", frisou Luís Saraiva.A associação, apresentada a 10 de dezembro, tem já marcadas para 2019 as suas primeiras atividades, nomeadamente a organização de um colóquio na primavera, em Coimbra, com o tema "'A Cultura Integral do Indivíduo' à uz dos desafios atuais da sociedade", e um segundo colóquio, no outono, sobre a atualidade do projeto da Biblioteca Cosmos, fundada por Bento de Jesus Caraça, tendo editado centena e meia de livros de divulgação científica, que visavam o acesso ao conhecimento, sem o qual "será sempre deficiente o exercício da cidadania", como o matemático e pedagogo defendeu no lançamento do projeto."Entendeu-se que não estava a ser feita uma divulgação de maneira mais abrangente do que [Bento de Jesus Caraça] fez e pensou e seria oportuno fazer-se uma associação que possibilitasse uma intervenção ativa, dentro da nossa medida, na sociedade portuguesa", disse à Lusa o presidente da associação recém-formada.Segundo Luís Saraiva, além da organização de dois colóquios em 2019, a associação pretende avançar com uma discussão sobre o atual sistema educativo, à luz do conceito da cultura integral do indivíduo, apresentando, posteriormente, propostas para um ensino em que se cultive a cidadania e permita às pessoas serem "críticas e ativas em relação ao mundo que os rodeia".Também em 2019, a associação pretende publicar uma fotobiografia do professor universitário e militante do Partido Comunista, informou o presidente da ABJC."É preciso aprender, experimentar e questionar. Essa atitude, essa maneira de olhar [em redor] era a maneira que Bento de Jesus Caraça tinha em relação ao mundo à sua volta", disse à Lusa o presidente do conselho geral da associação, e filho de Bento de Jesus Caraça, João Caraça.Para João Caraça, o pensamento de seu pai "é tão importante hoje como era na altura"."Queremos viver o tempo de hoje e, sobretudo, criar um futuro agradável de viver e onde haja alternativas. Queremos mostrar, por um esforço de raciocínio e análise das circunstâncias, que há sempre alternativas. A nossa obrigação é descobri-las, analisá-las e escolher", afirmou.Segundo João Caraça, "a cultura integral do indivíduo é uma cultura da interrogação, e é preciso que continuemos a interrogar-nos". "Temos de continuamente interrogar a sociedade que nos rodeia".Para o filho de Bento de Jesus Caraça, a associação tem um objetivo "de grande vulto": a ABJC "não vai transformar o mundo, mas pode ser um agente e dar um contributo", disse.A associação tem um site (www.associacaobentodejesuscaraca.pt), onde qualquer pessoa se pode tornar sócio.Além da edição da "Fotobiografia", por Natália Bebiano, está também prevista, entre os projetos da associação, a publicação de "A Lisboa de Bento de Jesus Caraça", por Helena Neves, e a reedição dos ensaios de "A Cultura Integral do Indivíduo - Problema Central do Nosso tempo", do matemático e pedagogo português, catedrático do antigo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras.Bento de Jesus Caraça nasceu em 18 de abril de 1901, em Vila Viçosa, formou-se no Instituto Superior de Comércio - na origem do atual Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) -, e chegou à posição de professor catedrático em 1929, com apenas 28 anos.Criou o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, a Gazeta da Matemática, esteve no núcleo fundador da Sociedade Portuguesa de Matemática, que veio a dirigir, e publicou, em 1941, a primeira versão de uma das obras de referência, em Portugal, “Os Conceitos Fundamentais da Matemática”.Pedagogo, apaixonado pela arte, Bento de Jesus Caraça fundou igualmente a Biblioteca Cosmos, colaborou em revistas como a Seara Nova e a Vértice, trabalhou na reanimação da Universidade Popular e esteve na luta pela liberdade durante a ditadura do Estado Novo, tendo aderido ao Partido Comunista Português e participado no Movimento de Unidade Democrática (MUD) - facto que o levou à Prisão do Aljube, em Lisboa, e ao afastamento da atividade docente.Em "A Cultura Integral do Indivíduo", dizia: "Conseguirá a humanidade, num grande estremecimento de todo o seu imenso corpo, tomar finalmente consciência de si mesma, revelar a si própria a sua alma coletiva, feita do desenvolvimento ao máximo, pela cultura, da personalidade de todos os seus membros? Eis a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração - despertar a alma coletiva das massas".Bento de Jesus Caraça morreu em 25 de junho de 1948.