Costa “perplexo” com críticas do PSD ao acordo com Espanha e França sobre interconexões
Crise/energia
24 de out. de 2022, 12:24
— Lusa/AO Online
António
Costa falava aos jornalistas após ter participado num conferência sobre
competências digitais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE),
depois de questionado sobre as críticas do PSD ao acordo alcançado na
quinta-feira, em Bruxelas, entre os governos de Portugal, França e
Espanha para acelerar as interconexões de energia.“Estou
absolutamente perplexo com o que ouvi ao longo deste fim de semana pelo
PSD e por outras pessoas que tinham a obrigação de ser minimamente
informadas sobre este acordo. O PSD não me surpreende propriamente,
porque há 15 anos foi contra as energias renováveis e ainda há cinco
anos era contra o hidrogénio verde e, portanto, é natural que esteja
contra a existência de um corredor verde para a energia”, declarou o
líder do executivo.Perante os jornalistas,
António Costa rejeitou a tese de que Portugal saia prejudicado por esse
acordo, sobretudo por, alegadamente, terem sido abandonadas as
interconexões elétricas.“Pelo contrário, a
França até tem a vontade de as incrementar. E, já no ano passado, entre
França e Espanha, tinha sido assinado um acordo para fazer avançar as
duas interconexões elétricas”, contrapôs.De
acordo com o primeiro-ministro, não era a questão das interconexões
elétricas que bloqueava um acordo entre Portugal e Espanha com França.“O
que estava a bloquear as interconexões é o que tem a ver com o
gasoduto. Em Bruxelas, na quinta-feira, tratou-se do que estava por
tratar”, apontou.Já quando foi confrontado
com as críticas do vice-presidente do PSD Paulo Rangel, António Costa
considerou que o eurodeputado social-democrata “já habituou a ser uma
pessoa que não olha a meios para dizer não importo o quê só para atacar o
adversário”.“Ele não sabe nada sobre
energia, ele ignora totalmente tudo o que tenha a ver com este acordo e,
ao longo dos anos, caso se for rever o que já disse sobre tudo e mais
alguma coisa, verificar-se-á que a taxa de reprovação de Paulo Rangel é
muito elevada”, declarou.Segundo o Governo
português, o acordo permite ultrapassar definitivamente o antigo
projeto, o chamado MidCat, e desenvolver um novo projeto, designado
Corredor de Energia Verde, que permitirá complementar as interconexões
entre Portugal e Espanha, entre Celorico da Beira e Zamora, e também
fazer uma ligação entre Espanha e o resto da Europa, ligando Barcelona e
Marselha, por via marítima”.Em causa,
segundo António Costa, está “um gasoduto vocacionado para o hidrogénio
‘verde’ ou outros gases renováveis e que, transitoriamente, pode ser
utilizado para o transporte de gás natural até uma certa proporção”.As
interligações energéticas entre a Península Ibérica e o resto da Europa
têm sido de debate desde 2009, sob a égide do ex-primeiro-ministro José
Sócrates, então com o reforço entre Portugal e Espanha, tendo – em 2015
– o então presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso,
defendido a sua execução de modo a reduzir a dependência energética em
relação à Rússia.Em março de 2015, o
sucessor de Barroso na liderança do executivo europeu Jean-Claude
Juncker, reuniu-se em Madrid com o ex-Presidente francês François
Hollande, o ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, e o então chede
do Governo português Pedro Passos Coelho, para acordarem modalidades de
reforço das ligações da Península Ibérica ao resto do mercado da
energia da UE.“O acordo anterior era um
belíssimo acordo, mas não foi por acaso que se chegou a 2018 sem que
tivesse havido qualquer passo. E de 2018 para cá também não houve
avanços, depois de ter sido chumbado pelos dois regulares espanhol e
francês”, referiu António Costa.Ao longo
dos últimos anos, de acordo com o primeiro-ministro, o trabalho passava
por reinventar o pipeline, se Portugal e Espanha queriam realmente que
existisse.Em relação ao gás, apontou que a
Espanha tem sozinha “um terço da capacidade de regaseificação de toda a
Europa, tendo sete terminais, enquanto Portugal tem essencialmente um,
em Sines”.“Portanto, a competição nesta
matéria nunca seria favorável a Portugal, Por contrapartida, no que
respeita à produção de hidrogénio verde e outros gases renováveis, como
Portugal começou a investir mais cedo nas energias renováveis, tem hoje
melhores condições para a sua produção. Em segundo lugar, o porto de
Sines continuará a ter a mesma capacidade que já tem para ser um local
de desembarque de gás natural – e ainda nada é afetado”, sustentou,
contrariando assim a posição do PSD.Ainda
em resposta às críticas do PSD, António Costa declarou que a questão de
Barcelona “só é introduzida agora porque é o ponto mais próximo de
Marselha, que, por sua vez, é o ponto onde termina a coluna vertebral da
rede europeia de gás natural”.“A França
aceitou que se contornasse o obstáculo dos Pirenéus e chegássemos a
Marselha. Do ponto de vista de Portugal, o fundamental é chegar a
Espanha e que a Espanha chegue a França. Se vai pelos Pirenéus ou se vai
entre Barcelona e Marselha isso não é decisivo para nós”, advogou.A
questão para Portugal, de acordo com o líder do executivo, é que a
ligação prevista para transportar exclusivamente gás natural “possa
servir sobretudo para o transporte de uma energia que Portugal pode
produzir”.“Tenho muita dificuldade em compreender as reticências levantadas”, acrescentou.