Costa gostaria de ver Merkel, Draghi e Lamy na "comissão de sábios" sobre futuro da UE
20 de fev. de 2023, 11:14
— Lusa/AO Online
"A presidente Von der
Leyen, na última conversa que tive com ela, mostrou que tem a noção de
que está na altura de nomear uma ‘comissão de sábios’ para pensar o
futuro da Europa. Eu gostaria muito de ver pessoas como Angela Merkel,
Mario Draghi, Pascal Lamy a refletir sobre isso", admitiu António Costa
em entrevista ao jornal Público divulgada na edição de hoje.Angela
Merkel e Mario Draghi foram os anteriores chefes dos Governos da
Alemanha e da Itália e o francês Pascal Lamy foi comissário europeu e
diretor-geral da Organização Mundial do Comércio entre 2005 e 2013.Na
entrevista, conduzida pela jornalista Teresa de Sousa, o líder do
executivo português lembrou os esforços do Presidente francês, Emmanuel
Macron, para debater o futuro da Europa no contexto da guerra na
Ucrânia, saudando o grupo de peritos criado com esse objetivo na última
cimeira franco-alemã.Costa defendeu que a
criação de uma Comunidade Política Europeia (CPE) "é uma boa
iniciativa", podendo conduzir a "uma Europa com uma geometria mais
variável". "Há a dimensão da CPE, onde
estão países que não querem entrar, como a Noruega, de países que
quiseram sair, como o Reino Unido, temos depois este círculo da União
Europeia", declarou, acrescentando: "Não estou seguro de que não
houvesse alguns Estados-membros atuais que se sentissem melhor na CPE ou
com uma participação ativa no Mercado Interno mas mais nada. E penso
que há espaço e urgência para que exista um núcleo duro que queira
aprofundar o nível de integração em matéria de política externa e de
segurança, de solidariedade orçamental, de política industrial…".Confrontado
com a posição contrária da Alemanha a esta estratégia, Costa respondeu:
o desafio com que estamos confrontados obriga-nos a todos a repensar as
suas posições históricas anteriores", dando o exemplo o atual chanceler
alemão, que não sua juventude se opôs à instalação de mísseis
norte-americanos no país e agora "dá um salto coperniqueano na política
de defesa alemã".Quanto à intenção da
Ucrânia de aderir à União Europeia, António Costa reiterou a posição que
tem assumido desde o início, afirmando ter sentido do Presidente
Volodymyr Zelensky "uma valorização positiva" relativamente "à
franqueza" da posição portuguesa."Temos
avisado que não podemos ignorar os vários países dos Balcãs Ocidentais,
que também são candidatos e que estão mais tempo à espera. Da mesma
forma como temos de ser sérios quando falamos com Kiev, também temos de
ser sérios quando falamos com esses países", reiterou, considerando que
um alargamento "suscita três tipos de problemas".Desde
logo, apontou "um problema de natureza política", uma vez que "a
Ucrânia será o quinto maior país da UE, o que implica um reequilíbrio
das relações de força internas" e, em "segundo nível", a questão
institucional"."Não vou entrar em
detalhes, mas dou só um exemplo. Já foi precisa uma grande imaginação
para a senhora Von der Leyen conseguir encontrar 27 portefólios para 27
comissários", comentou.Na entrevista, o
primeiro-ministro português defendeu ainda que a Europa tem de se
adaptar ao novo contexto gerado pela guerra na Ucrânia.A
União Europeia "tem de ter a humildade de perceber que o mundo mudou e
que tem de se adaptar muito rapidamente à nova realidade, sob pena de
ficar naquela situação dos aristocratas que, na transição do século XIX
para o século XX, não perceberam que o mundo estava a mudar e que, se
não acompanhassem a mudança, rapidamente se transformariam em
aristocratas falidos", concluiu.