Costa com agenda internacional intensa mas com consequências domésticas
Governo/100 dias
7 de jul. de 2022, 10:41
— Lusa/AO Online
Perante a
sucessão de casos que abalou o XXIII Governo Constitucional nas últimas
semanas, uma das principais questões em reflexão no PS é apurar em que
medida as frequentes saídas do país de António Costa tiveram
consequências no funcionamento interno do executivo, ou se, pelo
contrário, o problema de fundo estará antes relacionado com uma
excessiva imagem de continuidade transmitida pela nova equipa
governativa.No encerramento da recente
Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, o Presidente francês,
Emmanuel Macron, durante um passeio à beira Tejo com o chefe de Estado
português, viu os jornalistas rodearem Marcelo Rebelo de Sousa para lhe
obterem um primeiro comentário sobre o desfecho da crise com o ministro
das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos – uma crise que terá apanhado
António Costa de surpresa quando se encontrava na cimeira da NATO em
Madrid.Pouco depois desse passeio com
Marcelo Rebelo de Sousa, Macron encontrou-se com António Costa no MAAT
(Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) e confidenciou a alguns dos
presentes que também ele estava há vários dias longe de Paris, que ia
regressar nessa noite à capital francesa e que ainda tinha um Governo
para formar.Também num dos intervalos da
cimeira da NATO, na semana passada, em Madrid, durante uma visita ao
Museu do Prado, o primeiro-ministro italiano, Mário Draghi, aproveitou
esse momento com permissão de acesso a rede telefónica e foi apanhado
pelos fotógrafos sentado num banco, longe dos outros chefes de Estado e
de Governo, a procurar resolver uma crise interna no seu executivo.Os
casos de Macron e de Draghi, tal como o de Costa, de acordo com um
elemento do núcleo político do Governo, atestam que a agenda
internacional é cada vez mais exigente para os líderes políticos
europeus. E a crise aberta pela guerra na Ucrânia só agravou essa
circunstância.Desde o primeiro dia dos cem
já cumpridos pelo XXIII Governo Constitucional, de maioria absoluta do
PS, que se discute se António Costa vai cumprir o seu mandato de
primeiro-ministro até outubro de 2026, ou se sai a meio da legislatura
para desempenhar um cargo europeu. A
questão foi lançada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de
Sousa, logo na cerimónia de posse deste novo Governo, em 30 de março,
advertindo António Costa que será difícil a sua substituição a meio da
legislatura."É o preço das grandes
vitórias, inevitavelmente pessoais e intencionalmente personalizadas. E é
sobretudo o respeito da vontade inequivocamente expressa pelos
portugueses para uma legislatura. Agora que ganhou, e ganhou por quatro
anos e meio, tenho a certeza de que vossa excelência sabe que não será
politicamente fácil que esse rosto, essa cara que venceu de forma
incontestável e notável as eleições, possa ser substituída por outra a
meio do caminho”, declarou.Várias semanas
depois, numa entrevista promovida pelo Clube de Jornalistas, em parceria
com a agência Lusa, António Costa procurou afastar a questão levantada
pelo chefe de Estado.“Em circunstância
alguma em 2024, quando quer que seja, eu estarei disponível para ser
presidente da Comissão Europeia. Onde me sinto útil neste momento e até
outubro de 2026 é aqui em Portugal", declarou.Mas
as dúvidas não ficaram completamente afastadas, até porque os mais
próximos de António Costa conhecem o seu gosto pela agenda
internacional.Entre maio e junho, tirando o
caso de Itália, o primeiro-ministro português deslocou-se às principais
capitais europeias e foi recebido pelos líderes dos maiores países
europeus. Esteve com Pedro Sánchez em Madrid, com Olaf Scholz em
Hannover, com Emmanuel Macron em Paris e com Boris Johnson em Londres.Fez
ainda um périplo pela Europa de Leste que o levou primeiro à Roménia,
onde visitou as tropas portuguesas em missão naquele país, e
encontrou-se a seguir com o líder do executivo polaco, Mateusz
Morawiecki. Da fronteira polaca, partiu depois de comboio até Kiev para
se reunir com o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.Entre
maio e junho, além dos encontros bilaterais atrás referidos, António
Costa esteve em Bruxelas em duas reuniões do Conselho Europeu, esteve
também no Parlamento Europeu em Estrasburgo no encerramento da
conferência sobre o futuro da Europa e, mais recentemente, em Madrid, na
Cimeira da NATO.E o ritmo não abranda. No
domingo, António Costa parte para Maputo para a Cimeira Luso
Moçambicana e regressa logo na quarta-feira.